sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A realidade oculta

Este é o livro mais poderoso que me caiu às mãos. Brian Greene, físico teórico da Columbia, que já havia escrito O universo elegante e O tecido do cosmo, descreve hipóteses tão desvairadas sobre o universo que ficamos envergonhados de nossa juvenil e nunca resolvida perplexidade ante a mecânica quântica. 

Embora se declare reducionista "um sistema físico é completamente determinado pelo arranjo de suas partículas", ele nos apresenta ao conceito exótico dos multiversos. A coisa começa assim:

"se o universo tem uma extensão infinita, você não estará sozinho, independentemente de sua opinião com relação a essa visão da realidade. Existem muitas cópias perfeitas de você no cosmo que pensam e sentem de maneira exatamente igual. E não há maneira de saber qual delas é realmente você."

Perceberam que a Biblioteca de Babel, de Borges, enlouqueceu de vez? Existem não apenas livros em quantidade infinita, mas pessoas e suas vivências que nos copiam com variações mínimas (ou variação alguma), em número infinito: "A realidade que prevalece em qualquer universo dado, inclusive o nosso, será replicada infinitamente em outros universos do multiverso repetitivo."  

Percebem o abuso do conceito de infinito?

"A maioria de nós não tem a expectativa de que os mundos se repitam; nem a de encontrar outras versões de nós mesmos, nossas famílias e nossos amigos. Mas, se pudéssemos viajar por distâncias insondáveis, isso é o que acabaríamos por encontrar."  

Não para por aí. A partir do pensamento físico estabelecido, chega-se a muitas bolhas no multiverso: "cada bolha do multiverso inflacionário é espacialmente finita a partir da perspectiva externa e espacialmente infinita da perspectiva interna. Então, se o multiverso inflacionário for real, os habitantes de uma bolha - nós - seriam não só membros do multiverso inflacionário, mas também do multiverso repetitivo."

Agora você entendeu tudinho, não é mesmo? Acontece que não existe um tipo de multiverso, mas nove:
1. repetitivo (pressupõe universo infinito; as condições repetem-se necessariamente através do espaço, gerando mundos paralelos);
2. inflacionário (a inflação cosmológica eterna gera uma enorme rede de universos-bolhas, um dos quais seria o nosso universo);
3. de branas (nosso universo existe em uma brana tridimensional  que flutua em um ambiente de muitas dimensões, potencialmente povoado por outras branas - outros universos paralelos);
4. cíclico (colisões entre mundos-brana podem manifestar-se como o inicio de outros big bangs, gerando universos paralelos no tempo).
5. de paisagem (as múltiplas formas diferentes das dimensões extras da teoria de cordas dão lugar a muitos universos-bolhas diferentes);
6. quântico (todas as possibilidades incorporadas nas ondas de probabilidade são realizadas em algum universo dentro da vastíssima gama de universos paralelos assim gerados);
7. holográfico (nosso universo é espelhado exatamente por fenômenos que têm lugar em uma distante superfície que o limita, que constituem um universo paralelo fisicamente equivalente ao nosso);
8. simulado (os saltos tecnológicos sugerem que universos simulados podem, um dia, tornar-se possíveis - a conhecida matrix);
9. máximo (pelo princípio da fecundidade, todo universo possível é um universo real, o que desfaz a questão de saber por que uma determinada possibilidade - a nossa - é especial. Esses universos materializam todas as equações matemáticas possíveis);

E aí, de qual você gostou mais?

Falei da perplexidade com mecânica quântica. Aprendi, com Feynman, que a passagem das patifarias da mecânica quântica para comportamentos "normais" - aqueles que conseguem ser tratados por nossas mentes na construção da realidade comum - ocorre com o colapso de sua função de onda em um comportamento específico, por exemplo, um elétron passa a se comportar como onda ou partícula, deixando de ser uma nuvem probabilística de onda-partícula. Em tempo: função de onda é tudo que uma partícula, um quanta, um objeto podem fazer em certo trato de tempo. Assim, um fóton sai da tela de meu computador e estimula biorresistores em minha retina. Pra mim, é tudo que ocorre, mas um físico deve considerar que, antes de atingir minha retina, o fóton pode resolver ir passear nos confins do universo, ou em outros multiversos, ou ricochetear na casca de uma maçã na cozinha. A somatória de todas essas trajetórias, cada uma delas associada a uma probabilidade, fornece a função de onda desse fóton no momento considerado.    

Pois bem: a equação de Schrödinger não abona a interpretação de Copenhague. Bohr, sem sequer definir o que sejam observação e medição, decretou que devemos abandonar essa equação e declarar que a observação faz com que a onda entre em colapso. Contudo a equação de Schrödinger não consente que as ondas de probabilidade colapsem. E mais. Essa equação, linear, funciona para elétrons, quarks e, ao que tudo indica, para as coisas que eles constituem: nossos corpos e todo o universo, independente do número de partículas envolvidas.    

Nessa nova e arriscada abordagem, "tudo que é possível, do ponto de vista da mecânica quântica, é realizado em mundos separados" (o multiverso quântico). "Invocamos a probabilidade porque nosso conhecimento é geralmente incompleto."

Pergunto: a função de onda entra em colapso ao ser medida, ou todas as possibilidades se realizam em diferentes universos? Nesse último caso, cada clone seu nos infinitos multiversos é você.

É extravagante o bastante? Espere pra ver o que segue.

Segundo o físico Wheeler, matéria e radiação "deveriam ser vistas como secundárias, como veículos de uma entidade mais abstrata e fundamental: a informação".

E quem fala informação diz buracos negros, via entropia. Isso mesmo, a confusão só aumenta. Entropia: quê qué isso? A ordem se degrada em desordem, porque existem muitíssimo mais apresentações desordenadas do que ordenadas na evolução de qualquer sistema físico fechado. Observe que, por sua natureza estatística, "a segunda lei da termodinâmica não diz que a entropia não pode diminuir, mas apenas que é extremamente improvável que isso ocorra".

A produção quântica de pares, decorrência do princípio da incerteza, produz o único caso documentado do que parece um jantar grátis: um par de partículas, com energias iguais, mas opostas, é criado, do nada, por um tempo brevíssimo. Se esses pares se formam no horizonte de eventos de um buraco negro, a partícula de energia negativa pode cair no astro, e a outra escapar, originando a radiação Hawking, ou seja: buracos negros têm entropia. É dizer: eles também obedecem à segunda lei da termodinâmica.          

Qual o vínculo entre entropia e informação? "a entropia pode ser entendida como medida do hiato de informação existente entre os dados que estão disponíveis (as características macroscópicas gerais de um sistema) e os que não estão disponíveis (o arranjo microscópico particular do sistema)".  

Informação responde a perguntas (número de diferentes perguntas do tipo sim e não a que a informação consegue responder). Entropia é medida da informação oculta do sistema. Aonde isso leva?

Bem, Hawking demonstrou que a entropia de um buraco negro é igual ao número de células, cujos lados têm o tamanho do comprimento de Planck, necessário para cobrir a área de seu horizonte de eventos. É como se cada uma dessas celas carregasse um bit.

Agora já podemos revelar: a malha planckiana de zeros e uns que se distribuem pelo horizonte de eventos é o lugar onde a informação é guardada, de um ponto de vista externo ao buraco.  

Não consegue acompanhar? Estamos às portas do princípio holográfico: fenômenos que testemunhamos são espelhados em uma superfície limítrofe, tênue e distante (o horizonte de eventos). E isso se aplica aos multiversos, um dos quais seria o nosso. Assim, todo o nosso multiverso estaria espelhado em sua superfície, um bit por Planck quadrado.

Pronto. Não é mais difícil que isso. As equações mais loucas confabulam infinitos universos. Em tal inflação, o nosso não ocupa posição especial, assim como a Terra foi exonerada de sua posição central no sistema solar. Longe de termos um universo apenas vasto, com orçamento excessivo ao parecer humano, podemos ter infinitos universos, em um dos quais sou casado, tenho três filhos, cada um deles monarca de uma galáxia distante. Em outro, mesquinho, tornei-me fachista e acredito em Lula. Uma tal prolixidade de mundos parece sugerir que nenhuma oportunidade foi perdida, e que todas as vivências se equivalem. Eus infinitos vivem infinitas aventuras alternativas, e um deles descrê dessas linhas, após notar um livro na estante. Terão os outros sido influenciados por meu gesto? Estarão, agora mesmo, resistindo a Green e à minha presença?         

Está visto que o autor atingiu seu objetivo. Leia-o também. Se o pasmo não o assaltou linhas atrás, não é culpa do livro. Você apenas não entendeu do que se trata.  

Valeu? Da próxima vez que um místico vier com bazófias como milhões de deuses, reencarnações e ciclos infinitos, pessoas unas que são três, e morrem e ressuscitam num caos inimaginável; da próxima vez que você achar essas criancices intrigantes ou inexplicáveis, dê uma olhadinha no multiverso. Você vai ver que nenhuma idéia mística ou religiosa se compara à realidade que ora bosquejamos.    

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Por que as mulheres fazem sexo?

Tive receio de ler, nas páginas iniciais:

Não é óbvio?

Ou então: se você precisa perguntar... não vai entender a resposta...

Meston e Buss, pesquisadores, trazem centenas de depoimentos curtos de mulheres, identificadas segundo as preferências sexuais declaradas. Alguns são engraçados, outros surpreendentes, e outros esclarecedores - mas apenas se os supusermos representativos de uma parcela das mulheres. E isso não é garantido. 

Os autores observam, fiando-se em exames de DNA, que "12% das mulheres engravidam de outros homens que não seus parceiros fixos; portanto, adotam a estratégia dupla de conquista."

Se 12% das gravidezes são "de outro", qual a taxa total de infidelidade feminina, preocupado leitor? Dá uma pensada. Os autores arriscam: "pelo menos 50% das mulheres casadas (...) terão pelo menos um caso a dada altura de seu relacionamento." Sério.  

Isso me lembra minha camiseta da sorte, que sempre uso em viagens, para me exibir nas imigrações mundo afora, fazer amigos e influenciar pessoas. Com essa camiseta, veja o que aconteceu comigo, em um país islâmico:

- e aí, qué que tá escrito aí, nessa camiseta?
- Só Alá é Deus, rapaz!
- e nas costas?
- Maomé é seu profeta, oras bolas! (na verdade está escrito: "tem um corno me olhando" e, atrás, "continua me olhando!" Comprei-a a propósito da imigração de Portugal). 

Em outra passagem, citando a abordagem evolucionista, registram que o "ciúme (...) é uma emoção que evoluiu para ser acionada em caso de ameaça a um relacionamento valorizado."

A estratégia feminina universal de provocar o ciúme do parceiro (ou pretendido parceiro) tem o propósito de aumentar seu comprometimento, corrigindo um déficit de dedicação. Só que essas manobras por vezes resvalam em medidas desesperadas e imprudentes, com resultados dos quais nenhum dos dois têm do que se orgulhar, depois.

Isso de manobras arriscadas, tenho muito a dizer, mas sigamos com o livro: é uma resenha.         

O que explica, afinal, a divisão em homens e mulheres? Não seria menos desgastante que os indivíduos fossem hermafroditas? As lesmas do mar têm quatro sexos, cada uma, e se juntam para festinhas verdadeiramente animadas no fundo do mar.

Por outra: não seria melhor se pudéssemos embaralhar nossos próprios genes, sem sair por aí comprando ferraris ou fazendo plásticas?

Well... Fazemos sexo para garantir a variabilidade dos genes, num resumo temerário de centenas de milhões de anos de caos evolutivo, ignorando a função exclusivamente recreativa de hoje em dia...   

Em Sexo e as origens da morte William R. Clark explica:
(...) do ponto de vista biológico, “sexo” e “reprodução” são dois fenômenos inteiramente não-relacionados. O sexo refere-se somente à troca ou recombinação de toda ou parte da informação genética – o DNA – entre dois membros da mesma espécie. Reprodução é simplesmente isso – a reprodução de cópias adicionais de uma dada célula. “Reprodução sexuada”, portanto, significa troca de informação genética em combinação com a reprodução celular.
Na forma mais simples de vida, sexo é assim: dois indivíduos unicelulares se conjugam, permutando parte do acervo genético. O processo de fissão garante que cada uma delas fique com cópias de cromossomos ligeiramente embaralhados e recombinados, o que significa dizer que aumentou a variação genética, uma maneira de as espécies conseguirem se adaptar a um ambiente em transformação, permitindo ainda o reparo ou a eliminação de erros genéticos. O sexo rapidamente tornou-se a forma dominante de reprodução entre todas as formas de vida subseqüentes. (Vide minha resenha, abaixo)
Por que as mulheres fazem sexo? Por inúmeros motivos, muitos deles idênticos aos dos homens, mas com ênfases e focos diversos: atração, curiosidade, test drive, para praticar (porque a prática é o caminho da perfeição), variedade, personalidade aventureira, troca por benefícios e vantagens, caridade, frustração, tédio, desespero, dever, comércio etc (esse é um grande etc).

Pensemos um pouco: por que gostamos de comida açucarada e/ou gordurosa? "Não é óbvio?", diriam os incautos. Nada é óbvio aqui. Gordura e açúcar disparam sinais bioquímicos no cérebro, iguais a fel ou chuchu. Os animais empreenderam uma intrincada e custosa engenharia para garantir que essas substâncias disparem monoaminas associadas ao prazer, garantindo sua busca incessante (como é que certas substâncias significam prazer é outra pergunta, ligada ao problema geral das representações na mente, insondável).

Por ora devemos aceitar que o cérebro é capaz de rotular algo como prazeroso e outras coisas como desprazerosas (e não importa o nosso julgamento, circunstancial).

Isto é assim exatamente porque, na história evolutiva, as coisas marcadas com prazeroso garantiam a sobrevivência do indivíduo. Entre elas: gordura, açúcares, amizade, renome, força e compleição física e, claro, sexo. Abundante e recursivo, no caso dos homens; com o macho alfa, no das mulheres.

É por isso que as mulheres fazem sexo, mas ainda não respondemos à pergunta mais interessante: por que elas desejam menos sexo que nós, homens?

Uma resposta, que explicita assimetrias fundamentais na atitude: porque fazem pesado e desproporcional investimento parental nos filhos, do qual nove meses de gravidez é a parte mais fácil. O parto era, até pouco tempo, uma sentença de morte comutável. Daí que procurar o melhor pacote de genes ofertado no mercado - em vez de cair na farra com todos os homens disponíveis - é a estratégia ótima, e se estabilizou evolutivamente.

Os homens somos assaltados pela necessidade de sexo, o que significa que as mulheres podem escolher, pois estão em demanda. Temos uma percepção sexual exagerada: as mulheres estão sempre em falta. Dada a nossa libido desvairada, nunca temos oferta de sexo o bastante. E quem está em demanda tem vantagens óbvias na barganha. Daí que as mulheres escolhem, e têm a última palavra na relação sexual.

Existem sutilezas nessa escolha, porque ela é circunstanciada (entre os homens existentes numa certa época e local) e dirigida (pressão para ter algum homem), gerando um excesso para os dominantes e uma carência para os demais.       

Além disso, será mesmo seguro afirmar que as mulheres desejam menos sexo que nós? Well... Se elas desejam tanto quanto nós, têm um autocontrole tão impiedoso que vem a dar no mesmo: muito menos sexo do que gostaríamos, em qualquer época ou sociedade.      

Por que as mulheres fazem sexo? Não houvesse outros motivos, o sêmen é importante fonte de hormônios para a mulher, podendo alterar-lhe o humor. Por fim, sexo é grande promotor de longevidade, embora com impactos distintos entre homens (freqüência) e mulheres (qualidade).

Moral da história: faça o melhor sexo que você puder, na maior quantidade possível. Essa parte fui eu que acrescentei, com o perdão das leitoras e leitores.           

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O sexo e a origem da morte

Como a ciência explica o envelhecimento e o fim da vida (republico, com correções).

William R. Clark, catedrático do Departamento de Biologia Molecular, Celular e do Desenvolvimento da Universidade da Califórnia, apresenta-nos à morte no nível das células.

Ele liga sexo e morte, uma associação de evidente mau gosto. A prova do raciocínio não o exime do aborrecimento.

O sexo é uma forma perdulária de reprodução, diz o autor. Pode até ser, mas os sete bilhões de pessoas no mundo – para ficar só no exemplo humano – provam que também é muito divertida.

Ele diz que a morte chegou cerca de um bilhão de anos após o surgimento da vida, quando todos eram (e sabiam ser) imortais, como as bactérias e os vírus (algumas células cancerosas também têm o potencial da “imortalidade”).

Foi assim:

Famintas por hidrogênio, as cianobactérias fotossintéticas aquáticas (que deram origem às plantas) fabricaram – sem querer – um gás mortalmente corrosivo, capaz de destruir quase todas as moléculas orgânicas em que se baseia a vida: o oxigênio.   

Após essa “cagada” de escala planetária, ocorrida há austeros 2 bilhões de anos, as bactérias começaram a desenvolver especializações para se protegerem desse gás.

Sob pressão do meio, as bactérias (reino das formas mais simples de vida: o Monera) resolveram mudar, o que gerou novos reinos, como os proctotistas e os fungi, que incluem seres tão desprezíveis quanto os mofos e as amebas, além de consumados patifes, como o Plasmodium (causador da malária).  

O que foi essa mudança? A invenção do núcleo celular, com uma capa protéica protetora. Em seu caminho evolutivo esses organismos duplicaram seu DNA numa maçaroca de “corpos coloridos”, protegida por proteínas especializadas, chamadas histonas. Esses cromossomos passaram a ser lineares, em vez de circulares, como nas bactérias e, as pontas, a ser revestidas por estruturas especiais de DNA chamadas telômeros, para evitar que as extremidades grudem na própria estrutura ou em outros cromossomos.

Duplicado e encapsulado num núcleo – em vez de ficar balangando pra lá e pra cá no meio celular – o material genético proporcionou vôos mais ousados à evolução, o que levou ao aumento da célula (um proctotista como o paramécio, por exemplo, tem tranquilamente um milhão de vezes o tamanho médio de uma bactéria), e ao início de estruturas especializadas, como citoesqueletos – que propiciaram à célula movimento – e microtúbulos, para engolfar materiais extracelulares (expediente também chamado de alimentação).

Peço permissão para citar longamente o autor, com uma ou outra licença poética:

Parece que algumas bactérias começaram a achar que o interior de proctotistas maiores e mais avançados era um lugar bacana para viver e criar uma família. Elas se tornaram parasitas. Como a maioria dos parasitas bem-sucedidos, estas bactérias ganharam confiança. Por exemplo, algumas bactérias aparentemente desenvolveram defesas contra o oxigênio; umas poucas chegaram a desenvolver meios não só de neutralizar o oxigênio, mas de usá-lo para produzir energia. Isto deve ter impressionado certos proctotistas, que aparentemente assimilaram por endocitose algumas destas bactérias que respiravam oxigênio. Em vez de digeri-las para obter alimento, eles as converteram em partes permanentes da célula protista. Não era o que as bactérias tinham em mente, mas, no fim, todas as células eucarióticas adquiriram parasitas intracelulares semelhantes.

Essas organelas, produtoras de energia através de um processo químico envolvendo adenosina moléculas tri e difosfato (há uma “sobra” de energia, utilizada para tocar o dia-a-dia), têm seu próprio DNA, de filamento único e em geral circular, transmitido exclusivamente por linhagem materna. Esse DNA não está associado a histonas e contém genes de estrutura notavelmente procariótica. Creio que as provas são conclusivas quanto à origem bacteriana dessas usinas, que não ignoram o nome mitocôndria.         

Luca Cavalli-Sforza descreve assim toda essa confusão:

Podemos encontrar milhares ou dezenas de milhares de mitocôndrias em cada célula; no mínimo uma vai estar sempre presente. Tem o formato de uma pequena bactéria e provavelmente é o que ela é: uma bactéria que há mais de um bilhão de anos adaptou-se a viver em simbiose com a célula e tornou-se um componente importantíssimo, assumindo exatamente a função de central energética. 

Um suprimento assim formidável de energia abriu caminho para o crescimento da célula, apenas obstado por uma propriedade geométrica: o volume de uma célula aumenta em proporção ao cubo de seu raio, enquanto a área da membrana de superfície – local por onde os nutrientes entram e os dejetos são expelidos – aumenta somente em proporção ao quadrado do raio. Logo, o crescimento torna as células muito mais volumosas (e pesadas) que grandes. Um cubo de 1 cm de lado tem uma superfície total de 6 cm² e volume de 1 cm³. Um cubo com 2 cm² de lado terá 24 cm² de superfície total e volume de 8 cm³. A razão superfície/volume do primeiro cubo é de 6:1, enquanto a do segundo é de 3:1.

O leitor entendeu, não é mesmo?

Ah, deixa pra lá. O importante é aceitar que, se você é uma célula, é melhor se associar a outras para enfrentar as adversidades do meio, em vez de tentar ficar do tamanho do mundo.

Após muitos arranjos, incluindo vários núcleos, ou várias cópias dos cromossomos (configuração poliplóide), as células resolveram se associar em organismos pluricelulares.

Foi aí, em algum lugar pelo caminho dos moneras aos proctotistas, há cerca de um bilhão de anos, que a morte que conhecemos – a morte como uma conseqüência inescapável da vida – apareceu pela primeira vez. Era a estréia da morte programada.

Disse, algures, que os indivíduos unicelulares são imortais. Serão mesmo?

Os primeiros moneras unicelulares reproduziam-se assexuadamente em um processo simples chamado fissão. Nesta forma de reprodução, uma determinada célula replica seu DNA de forma autônoma e depois se divide em dois clones perfeitamente iguais, cada clone descendente recebendo uma cópia do DNA. Estas células amadurecem e cada uma delas produz dois clones idênticos e saudáveis. Assim, o organismo – o unicelular – nunca morre verdadeiramente. Afinal, onde está o corpo? Pode haver morte na ausência de um cadáver? Estas células são na verdade imortais.

Em conseqüência, os organismos que se reproduzem por fissão simples, como acima, não conhecem a senescência,

o envelhecimento gradual e programado das células e dos organismos que elas compõem, independentemente dos acontecimentos no ambiente. A morte do organismo por senescência – a morte programada – fez sua aparição na evolução mais ou menos na época em que surgiu a reprodução sexuada. Tanto o sexo como a morte programada começaram quando a grande maioria dos organismos ainda era unicelular.

(...) do ponto de vista biológico, “sexo” e “reprodução” são dois fenômenos inteiramente não-relacionados. O sexo refere-se somente à troca ou recombinação de toda ou parte da informação genética – o DNA – entre dois membros da mesma espécie. Reprodução é simplesmente isso – a reprodução de cópias adicionais de uma dada célula. “Reprodução sexuada”, portanto, significa troca de informação genética em combinação com a reprodução celular.

Na forma mais simples de vida, sexo é assim: dois indivíduos unicelulares se conjugam, permutando parte do acervo genético. O processo de fissão garante que cada uma delas fique com cópias de cromossomos ligeiramente embaralhados e recombinados, o que significa dizer que aumentou a variação genética, uma maneira de as espécies conseguirem se adaptar a um ambiente em transformação, permitindo ainda o reparo ou a eliminação de erros genéticos.

O sexo rapidamente tornou-se a forma dominante de reprodução entre todas as formas de vida subseqüentes. Por quê?

Para as bactérias que se reproduzem somente por fissão, a imortalidade é garantida automaticamente; a imortalidade para todos os outros depende de fazer sexo.

II. Sexo e morte.

Existem sutilezas envolvendo os paramécios e outros proctotistas ciliados, que terminam por revelar o nó górdio da questão. Neles, surge, pela primeira vez, a segregação de DNA a ser usado para fins reprodutivos (conjugação) do DNA usado para orientar a operação diária da célula.

Assim, determinadas cópias do DNA é separado e utilizado exclusivamente para a reprodução. A outra parte (composta de células somáticas) é utilizada no metabolismo do corpo, sofre inúmeras divisões (por fissão sem recombinação genética) e, no afã de manter o organismo em funcionamento, acumula muitos erros de replicação.
                      
Essas mutações não são compensadas nem corrigidas por sexo meiótico; as células somáticas não trocam nem recombinam DNA com outras. Sua função é garantir a sobrevivência e transmissão do DNA guardado pelas células germinativas, segregadas e inertes, até o momento da reprodução sexuada.

Já podemos ver que a morte surge da separação entre DNA somático e germinativo. Só as células germinativas conservam o potencial da “imortalidade”. Elas podem deixar o corpo, combinar-se com outras células germinativas e produzir uma progênie. Quando isso acontece, o relógio da senescência da célula germinativa é zerado.

O DNA da célula somática não recombinado torna-se não só redundante, como também irrelevante. Esse refugo genético, leitor, somos eu e você.

Resumindo:

O impulso para um tamanho cada vez maior foi obstado por uma lei da física (a célula fica pesada e volumosa; a área relativa menor impede trocas eficientes com o meio: alimentação e secreção ficam prejudicadas). Os organismos, pressionados, acabaram descobrindo a pluricelularidade, associação entre organismos inicialmente independentes, com benefícios mútuos. Esse mesmo impulso levou à criação de DNA extragerminativo (somático). O advento do sexo na reprodução fez o que era necessário para destruir o DNA somático no final de cada geração.

Isto porque o reparo de DNA somático (não-reprodutivo) é espinhoso, caro e, no final das contas, não vale e pena.  O DNA somático teria de ser alterado, de modo a refletir a composição do DNA reprodutivo novo e produzido sexuadamente. Isto já seria difícil no DNA macronuclear de um ciliado unicelular; em animais pluricelulares, está fora de cogitação. É mais fácil simplesmente destruir o velho DNA somático e recomeçar. Se o DNA está em células separadas, as células também morrem. Infelizmente, estas células somos nós.
   
A essa altura, creio poder apresentar esta tese do autor, um susto: a morte não é um correquisito automático da vida. Determinadas células tumorais, por exemplo, comportam-se exatamente como organismos unicelulares primitivos: proliferam assexuadamente, por fissão simples, e nunca se “cansam”. Produzem cópias de si mesmas indefinidamente, bastando alimento e oxigênio ilimitados (desde que evitada a superpopulação). O “relógio” delas está perpetuamente zerado; elas não envelhecem nem morrem. Como as células germinativas, elas são potencialmente imortais.

O mais famoso conjunto de células cancerosas do mundo, chamado HeLa, já produziu, num cálculo aproximado, cópias num total de 2 elevado a uma potência de 15.000 zeros!

Como é que se zera o relógio? Através da reprodução com embaralhamento genético. Uma célula somática poderia zerar seu reloginho, desde que tivesse as estruturas genéticas que reparam o DNA, corrigindo os erros acumulados. Assim, poderia gerar cópias novinhas de si mesmo, sem erros, e se “tornar perpétua”.

Isto é possível para células indiferenciadas, como as células iniciais dos embriões, mas não para aquelas que formam organismos desenvolvidos, como nós. Nestes, as células expressam segmentos diferentes do acervo genético. Os demais loci ficam inacessíveis, para sempre (diz-se, da parte acessível, que fica aberta para se expressar).

Estou simplificando demais a questão, por modéstia ou falta de conhecimentos (tenho certeza que alguém vai aparecer com um monte de exemplos de relógios zerados, das maneiras mais loucas), mas é mais ou menos isso, sim senhor.

Final.

Imortalidade de quem?

A “imortalidade” de uma bactéria, ou de uma célula cancerosa, incapazes de saber o que seja morte, não faz o menor sentido. A nossa dependeria de um mecanismo perfeito de reparo dos erros acumulados na reprodução das células somáticas, necessária à manutenção da vida (a reconstrução diária dos órgãos e tecidos).

Imortal, mas com modificação, é o código genético, apenas, em nós como nos vírus e bactérias.

Já andaríamos bem se garantíssemos vida digna, com duração razoável, a toda a humanidade, sem extermínio das demais formas de vida ou exaustão dos recursos ambientais.

O expediente da associação de células, que garantiu sucesso diferenciado aos nossos ancestrais, e permitiu que emergisse uma consciência, cobrou seu preço. A separação entre células encarregadas de construir e operar um vetor para os genes, e as células reprodutivas, portadoras do projeto de novos vetores, levou à necessidade de destruir o material genético desgastado, cumprida sua finalidade: passar à próxima geração o acervo genético.   

No final, fatigados, encaminho-nos todos ao inefável descanso, legando aos filhos (portadores de uma determinada apresentação de nosso pool genético) o mundo. O autor faz uma abordagem inteligente do problema, levanta muitas questões, força-nos a pensar.

Nesta tentativa de resumo gastei meses, porque queria entender do que se trata. Naturalmente, o texto é muito mais rico que estas notas, simplórias. Terei de estudar um pouco mais o tema, absolutamente fascinante.

Campo Grande, 31 de março de 2007. 

domingo, 29 de julho de 2012

Memórias do Mensalão

(Publicado por Ricardo Noblat, em 29.06.05):

Sabem só o que faltava? O governo não conseguir criar a CPI chapa branca do mensalão na Câmara dos Deputados depois de ter mandado imprimir uma edição extra do Diário Oficial com algo jamais visto: uma Medida Provisória que revoga outra - ambas assinadas pelo mesmo presidente da República.

A edição extra circulou com uma página só.

Presidente só pode se valer de Medida Provisória para tratar de assunto considerado "urgente" e relevante". Lula considerou "urgente" e "relevante" a criação de uma loteria para socorrer clubes de futebol.

Hoje, considerou "urgente" e "relevante" revogar por Medida Provisória o que antes lhe parecera "urgente" e "relevante" - a criação da tal loteria.

Brincadeira, gente! Brincadeira, não: é uma grande esculhambação!

sábado, 28 de julho de 2012

Gustavo Ioschpe

Autocontrole, seja para pessoas ou governos, faz toda a diferença, e pode explicar a fortuna ou fracasso na vida. Gustavo Ioschpe faz uma explanação primorosa, com foco nas chamadas "trocas entre gerações", que reproduzo, exaustivamente:

A capacidade de sacrificar um pequeno ganho presente (comer um doce) pela possibilidade de um ganho maior no futuro (dois doces) se relacionava com o bem-estar em dimensões bem mais sérias ao longo de toda a vida.
Países são mais complexos que pessoas, e o estado de um país não é igual a uma simples soma dos atributos de seus habitantes. Mas creio que a diferença entre o todo e a soma de suas partes também não pode ser muito diferente, especialmente se esse país é uma democracia. E quero postular aqui que grande parte dos problemas que o Brasil enfrenta se deve à nossa incapacidade de fazer essas trocas intertemporais, de aceitar sacrifícios presentes para colher ganhos futuros. A tese não é original — Eduardo Giannetti já a traçou com mais brilhantismo e sutileza em seu livro O Valor do Amanhã —, mas me parece merecer mais atenção do que a que lhe é costumeiramente devotada.
Se tivesse de fazer um resumo grosseiro do que é o processo de desenvolvimento econômico, diria que depende de pessoas, dinheiro e instituições. Quando falo de pessoas, quero dizer produtividade, já que as outras variáveis — como o número de horas trabalhadas ou a fatia de pessoas empregadas — podem rapidamente bater em um limite intransponível, enquanto a produtividade pode aumentar indefinidamente. E ela está diretamente relacionada à educação. No quesito dinheiro (capital), a variável mais importante é a taxa de poupança. Que, grosso modo, determina aquilo que os agentes econômicos poderão investir. Sem investimento não há crescimento.
Por instituições, entenda-se o arcabouço jurídico que garante estabilidade e previsibilidade a empreendedores e trabalhadores, especialmente no que tange à proteção da propriedade. Desses três fatores, só as instituições não são, direta e explicitamente, fruto de trocas intergeracionais. Fazer poupança e criar um bom sistema educacional são atividades em que o sacrifício dos pais está umbilicalmente atrelado ao bem-estar dos filhos. E creio que não é por acaso que o Brasil fracassa em ambas. Temos não apenas um dos piores sistemas educacionais do planeta como também uma taxa de poupança historicamente baixa (de 18% do PIB em 2010, contra 52% na China, 32% na Índia, 34% na Indonésia, 32% na Coreia do Sul, 24% no México e uma média de 30% nos países de renda média, como o Brasil, segundo dados do Banco Mundial). Esqueça o pré-sal: não estamos conseguindo acumular o combustível que realmente importa para impulsionar nosso desenvolvimento.
Esses dados são costumeiramente expostos nas páginas de jornais e revistas, e a análise que sempre os acompanha, tanto no caso da poupança quanto no do ensino, é que é tudo culpa do governo. Que não planeja o longo prazo, que não controla gastos, que é corrupto e perdulário. Tudo isso é verdade, mas nosso governo não é um ente exógeno que chegou do espaço sideral para meter a mão em nossos impostos: nós o colocamos lá. E, apesar de ser doloroso reconhecê-lo, as ações dos políticos espelham as nossas.
(...) A incapacidade de se controlar está chegando também à nossa cintura: logo que as famílias saíram da pobreza e passaram a poder consumir um pouco, o perfil nutricional do brasileiro passou da subnutrição diretamente para o sobrepeso. Entre 1989 e 2009, a obesidade infantil mais do que quadruplicou. Hoje, um de cada seis meninos de 5 a 9 anos de idade é obeso. Segundo o Ministério da Saúde, 49% dos brasileiros têm sobrepeso.
Quando falamos de escolas, a indisposição do brasileiro para sacrifícios é ainda mais aparente. Em Xangai, fui visitar a família de um aluno humilde escolhido aleatoriamente e vi algo que imagino ser raríssimo no Brasil: no modesto quarto e sala da família, os pais dormiam em um apertado sofá-cama na minúscula sala ao lado da cozinha, enquanto o filho tinha o quarto espaçoso para si. A prioridade era o estudo do filho.
Quando você leu o título deste artigo, provavelmente respondeu a si mesmo: "Eu faria de tudo pelo meu filho". Mas, se você for um brasileiro normal, a resposta real terá sido: "Tudo, desde que não atrapalhe o meu estilo de vida". Você topa trabalhar duro para pagar uma boa escola, e acha que por isso mesmo é que a escola não deve exigir de você que se envolva com os estudos do filho quando chegar em casa cansado, à noite. Várias vezes eu vi pais carregando filhos pequenos chorosos em restaurantes em horários em que estes deveriam estar dormindo. Há dois meses, usando a mesma lógica do "não tinha com quem deixar a criança", um sujeito levou o filho de 8 anos para explodir e roubar um caixa eletrônico. Já ouvi muito pai querendo colocar o filho em escola perto de casa — raramente encontro gente se mudando para deixar o filho mais próximo de escola boa.
Entre poupar para dar uma segurança aos seus filhos e comprar a geladeira nova, você opta pela geladeira. Mesmo que nem tenha o dinheiro e se comprometa com prestações a perder de vista. Entre renegociar uma Previdência impagável e empurrar o problema com a barriga, escolhemos o segundo. E, quando a nossa irresponsabilidade cobra a fatura, queremos que o governo segure nossas pontas. O livro A Cabeça do Brasileiro mostra que 83% de nós concordamos que o governo deve socorrer empresas falimentares. Inacreditáveis 70% gostariam que o governo controlasse os preços de todos os produtos do país. Queremos o retorno garantido, sem topar correr os riscos. Queremos desfrutar tudo aquilo que os países ricos têm, sem termos de trabalhar o que eles trabalharam para chegar lá. Queremos um futuro glorioso, desde que isso não signifique sacrificar nada do presente. Essa conta não fecha. Jamais fechará.
Antes de exigir dos outros que melhorem nossas escolas, hospitais ou estradas, vamos precisar olhar para nós mesmos e decidir se estamos dispostos a pagar, com sacrifícios no presente, o preço de ser o país do futuro. Ou se continuaremos a ser a eterna promessa, que comeu o doce da mesa assim que o adulto saiu da sala.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A lógica do cisne negro

Nassim Nicholas Taleb, libanês radicado nos EUA, autor de Iludidos pelo Acaso e decano de ciências da incerteza, na Universidade de Massachusets, produziu uma diatribe contra nossas pobres certezas.

Comecemos definindo cisnes negrosum evento com três características elementares: é imprevisível, ocasiona resultados impactantes e, após sua ocorrência, inventamos um meio de torná-lo menos aleatório e mais explicável.

Podemos incluir nessa categoria a Revolução Russa de 1917 (seguida do golpe de estado dos vermelhos), o 11 de Setembro e o surgimento do Google e Facebook. Quase certamente você pode incluir seu casamento, leitor, assim como as sandices das bolsas de valores.

Imprevisível, ele diz. Quão imprevisível? Tão imprevisível quanto o derretimento mundial de 2008 - que explicamos agora por falta de regulação financeira combinada com farra no crédito via juros baixos - ou a derrocada do império soviético em 1990.

Resultados impactantes: a Segunda Guerra Mundial, não prevista, moldou dramaticamente o mundo. Ninguém a antecipou, nem mesmo após as grandes invasões alemãs, muito menos seus contornos infames, até onde se sabe.        

Todos esses eventos recebem explicações simples, concisas e suficientes de nossa parte, com o beneficio da análise em retrospecto.

Aqueles historiadores que não se contentam com um inventário burocrático de fatos geralmente atribuem a SGM a fatores como ganância e loucura de Hitler, inépcia e ingenuidade de França e Reino Unido e esperteza trágica de Stálin. 

Faço reparos a essa visão: uma coisa é o receio dos americanos em servir de bucha de canhão. Outra é a posição do Estado americano, que faturou alto com a carnificina. Metade do PIB mundial estava em suas mãos, ao final dessa farra chamada SGM. Cá imagino que uma coisa dessas não aconteça por acaso.

O que chamamos História não passa de um amontoadinho à toa de narrativas mais ou menos arbitrárias e desprevenidas. 

Taleb desfecha um ataque certeiro contra os economistas, a quem dirige uma das mais sérias acusações: os modelos matemáticos, por mais sofisticados, são meras distrações de nerds, ao caírem no pecado capital - supor que os indivíduos agem racionalmente ao lidar com o dinheiro ou com incertezas. E critica os que sabem matemática "o suficiente para serem cegados por ela".  

Não dê ouvidos a previsores econômicos ou a previsores nas ciências sociais (eles são meros fornecedores de entretenimento), diz o autor, no que podemos considerar uma síntese bastante boa de todas as previsões para os mercados de ações que eu já li.

A seguir vem uma advertência importante: a curva na forma de sino gaussiana só ocorre no mediocristão (neologismo que implica: aleatoriedade moderada e acontecimentos não escaláveis. Sua lei seria: quando a amostra é grande, nenhum exemplar isolado alterará de modo significativo o agregado ou o total).

No extremistão as desigualdades são tantas que uma única observação pode exercer um impacto desproporcional sobre o agregado ou sobre o total. O extremistão produz cisnes negros. É caracterizado por grandezas escaláveis, aleatoriedade intensa e desigualdade extrema (e torneios tipo o vencedor leva tudo). É a tirania do singular, do acidental e imprevisto.  

Pertencem ao extremistão: riqueza, renda, sucesso na venda de livros, reconhecimento como celebridade, mercados financeiros, preços de commodities, taxas inflacionárias e dados econômicos em geral.

O extremistão dramatiza o problema da indução (ou problema do conhecimento indutivo), que tanto ocupou Bertrand Russel: como tirar uma conclusão geral a partir de pequenas amostragens? Algo funcionou no passado. Funcionará no futuro?

Bem, pra que tudo isso? A curva na forma de sino só vale dentro de um arcabouço de normalidade - ou seja, somente no mediocristão. Daí não conseguirmos prever os eventos mais importantes da vida, e cairmos no conto do vigário dos gerentes de banco.  

Tem lógica, o cisne negro? Tem, infelizmente.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Mensalão e lula

lula saiu da presidência com um crime (mais um) em mente: falsificar a história, apagando o Mensalão. Para quem não lembra da verdade, ou não lembra de que lula pediu perdão pelos crimes cometidos em seu governo (embora alegando desconhecimento), segue o vídeo, bastante didático: