terça-feira, 14 de outubro de 2008

Fernando de Noronha

O unânime céu se esvai em brasa. O último sol naufragou e herdamos suas generosidades.

A difícil primavera

Não sendo o caso de primavera, colhamos as flores provisórias que alentam o dia possível. Elas resolveram publicar-se: sabem a manhã e lindam o dia. Eu quase não sei tanto amarelo, tanto pássaro. Eu quase não sei. A planície de girassóis dançarinos devassada pela claque pânica das aves. Um sol vertiginoso resolve a tarde, os reflexos de um coração diamantino. Vão-se os pássaros, apagam-se os incêndios amarelos de girassóis fortes em sol nutriz. Cabisbaixos, eles passarão a noite sem dar confiança às estrelas que, lindas, embaixarão mensagens de ternura e avivos. O discurso provisório das flores comunicando o dia. Chapadão do Sul, maio de 2004.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Excursão

Na excursão das crianças ao cinema verificou-se: um alarmante déficit de mães uma contenda envolvendo o Hulk e o Andrezinho um bulício articulado papelinho de bala um plocar-trovoada de chicletes o salto olímpico de pipocas esquivando-se de bocas molhadas de gula uma incontrolável epidemia de dor de barriga uma cacofonia de choros desafinados e uma poltrona vazia que era minha. O filme passava, as horas passavam e as crianças, que se haviam sujado ao não alcançarem banheiros, subiam uniformes ao caminhão do Exército. 1999.

Queenstown

As Remarkables.

Notícias

As notícias estão tão loucas que ultimamente ando consultando os sites dos maiores jornais do mundo para conferi-las e evitar que me preguem uma peça. As de hoje: as bolsas sobem desvairadamente, a Europa começou a estatizar seus bancos e meu guru financeiro ganhou o Nobel de Economia. Anotou a Folha de hoje: Paul Krugman, 55 anos, elaborou uma teoria que integra pesquisas sobre intercâmbios comerciais e globalização com estudos sobre os processos de urbanização em escala planetária, destacou a Real Academia de Ciências da Suécia. Nascido em 28 de fevereiro de 1953 em Long Island, no estado de Nova York, Krugman dá aulas atualmente na Universidade de Princeton e desde 2000 colabora com o New York Times. Ele é conhecido por suas críticas virulentas contra a política geral e, em particular, a condução econômica do presidente George W. Bush.
Por inacreditável, não consigo pensar o mundo sem antes ler a coluna do Krugman.

domingo, 12 de outubro de 2008

Os caipiras

FOLHA - Os "rednecks" estão bem representados nesta eleição? JOE BAGEANT - Nunca estamos bem representados na política. Às vezes há uma tentativa de associação, como com Sarah Palin, mas é bobagem. Os "rednecks" são pouco educados, muito patrióticos e facilmente manipulados. É gente negligenciada, que perdeu casa, emprego, não tem seguro-saúde e com quem ninguém se importa, a não ser em ano eleitoral.
FOLHA - Mas Palin tem apelo entre os trabalhadores... JOE BAGEANT - Sim, porque é tão superficial quanto eles. Estão cheios de problemas e só vêem advogados de Harvard na política. Agora vêem uma Sarah Palin, que caça alces, e ficam mexidos. Ela só tirou o passaporte no ano passado? O povo aqui nunca tirou! Fazem troça dela, e o pessoal aqui pensa: "Esses esnobes estão tirando uma com a minha cara, porque eu também caço e vou à igreja". No negócio de perpetuar o mito da liberdade, é também perpetuado o mito de que a sabedoria do povo é sublime e perfeita. Só que Sarah Palin é uma fraude - não ela pessoalmente, mas o jogo que ela joga. Não importa quem ganhe, não vai fazer diferença para os burros de carga aqui. Eu não conheço ninguém que continua falando sobre Palin. A vasta maioria aqui não pensa em política, age por reflexo. No máximo, querem a parte da fofoca.
Folha de hoje.

Ema

Arara canindé

Molhando o bico I.

Arara azul

Molhando o bico II. Fazenda Rio do Peixe.

sábado, 11 de outubro de 2008

Queenstown

O pequeno monomotor decolou sem cerimônia de uma pista de grama. No ascenso, curvas fechadas entremostrando as Remarkables e o Wakatipo, amplas belezas.
A 12.000 pés uma luz vermelha é ligada e alguém destrambelha a porta. O câmera se empoleira num estribo e a primeira dupla se joga. Quando penso que vou sentir medo ou, quem sabe, desistir, sou jogado mundo abaixo. Instrutor a reboque.
Primeira sensação, a vertigem da queda livre, a mais de 200 km/h, enquanto vemos alternadamente o avião indo embora, as montanhas, o lago, a outra dupla, enfurecendo o vento. O sol cegou meus olhos e vi o amor de eras, Deus, um parente que já morreu.
Finda a saudação inicial dos céus, em cambalhotas, a velocidade só aumenta, o vento se adensa, as montanhas e o lago te convidam, mas há receio. Pra onde se olhe, são belezas, rápidas demais para uma contemplação. Fixa-se a imagem de coisas em ângulos e velocidades impensáveis e isso é o melhor que podes fazer.
Quando já se está aclimatando a essa dinâmica, um puxão pelas pernas e tronco informa o trabalho da vela. Falta de ar e excesso de adrenalina na corrente sanguínea são o cenário interno na aproximação do pouso. Que ocorre suavemente, na grama macia, pondo fim a tanta queda, descabida.
Delírio, insensatez, mortes controladas, brilho de vida. São 9 horas. Nada mau, para um começo de dia.
Queenstown é cidade de muitos argumentos, e recordações perenes.
Qtown, 16 de janeiro de 2008.

Um vento cruel

Islândia, gélida ilha colonizada por noruegueses a partir do século 19, vergou sob o peso de um sistema bancário superdimensionado e excessivamente criativo, muito dado a exóticas transações com os russos. Foi a leilão no eBay nessa surpreendente sexta-feira.
O anúncio dizia que o comprador encontrará "um ambiente habitável, cavalos islandeses e uma situação relativamente desordenada". Dizia ainda que "Groenlândia e Björk não estão incluídas".
Na maior parte do século passado, a Islândia era pouco mais do que um ponto de descanso para as frotas pesqueiras do Atlântico Norte que cruzavam as águas entre Groenlândia e a ilhas Faroë. Reykjavík, onde mora grande parte da população de 320.000 habitantes, ainda parece um porto provinciano. Motoristas de táxi acenam para o presidente, e há uma sensação que a maior parte das pessoas tem alguma relação política, comercial ou de parentesco. Entretanto, apesar de seu ar sonolento, a capital islandesa foi transformada na última década. Uma forte expansão para mercados externos trouxe para o país uma influência desproporcional ao seu tamanho e tornou sua população uma das mais ricas per capta do mundo. Agora, depois de uma semana na qual os três principais bancos da Islândia desmoronaram e foram estatizados - colocando mais de $ 20 bilhões de euros (em torno de R$ 60 bilhões) em risco para a Europa - a fama está virando notoriedade. Como advertiu o primeiro-ministro Geir Haarde nesta semana: "Há um perigo real que a economia da Islândia seja tragada junto com os bancos, e a nação vá à falência."
Nas palavras de um investidor britânico: "É melhor os islandeses pegarem suas varas de pescar. Vão precisar de muito bacalhau para compensar o que perdemos."
Matéria no Financial Times de hoje assinada por Kate Burgess, Tom Braith Waite e Sarah O'Connor.

Pantanal

White Island