Caí no conto de fadas de que, trazendo meu próprio computador, previamente cadastrado no banco e por ele reconhecido, poderia movimentar minha conta.
Pois bem.
Estou num McDonalds, há horas tentando o acesso e com a bateria prestes a acabar. A maldição do banco fica pedindo a instalação de um novo programa (que ele finge fornecer, mas nunca se instala) e não permite o acesso. Volta sempre para a senha, num enervante laço.
De outro computador, nem pensar. Só os previamente cadastrados. No Brasil.
Tenho uma promessa para o ano: a primeira providência, assim que puser os pés no Brasil, vai ser acabar com minha conta nessa nódoa no sistema financeiro, esse banquinho chamado BANCO DO BRASIL.
É o que prometo.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Notas de viagem
1. Cervejaria em Munique.
Teto decorado com pastorais alemãs; mesas rústicas, chefiadas por alemães; música folclórica tocada só quando dava na veneta da banda, bávara. Onde estarão os estrangeiros? Peço chope. Ignoro se a Alemanha tem coisa melhor.
O acompanhamento inclui salsichas, com chucrute, of course.
Em outra cervejaria (sim, visitei todas que pude), as salsichas boiavam pálidas numa água quente, e o gosto não era muito melhor que a aparência.
Já o chope era inteiramente digno.
Descobri, no fundo da vasilha, sob a água, a conta. Bastante original.
2. A temível Polizei alemã usa uniformes e BMWs verdes, como nos filmes de James Bond. Mas dentro desses uniformes encontrei, muitas vezes, loirinhas de uma simpatia e beleza que desmentem a ferocidade do mito.
Em Munique uma delas gastou uns cinco minutos me explicando como chegar à cervejaria Hofbräu (eu já tinha ido lá umas cinco vezes naquele dia. Ainda assim queria ouvir a explicação). Por pouco não esqueço o acatamento que se deve à polícia alemã e convido a menina para um chope.
A verdade é que eu teria facilmente consentido em que ela me impusesse algemas. Desde que despisse o uniforme.
Outra, em Berlim, dividiu comigo a fila da lanchonete, toda olhares.
Inda acabo preso por uma dessas policiais.
3. Sobre viajar sozinho
Minha amiga Rosanna me perguntou sobre passar o Natal a sós. Sabem, o Natal também pode ser uma festa privada. Além do mais, é pra isso que foram inventadas essas cidades asiáticas, não é mesmo?
Estarei em Hong Kong, onde o X-mas não é mais que uma ementa ao já vasto arsenal de motivos para as vendas.
Pensando bem, não é tão diferente assim dos nossos natais...
4. Perguntei no hotel, em Berlim, onde ficavam os restos do famoso muro (a cidade tem cicatrizes dessa vergonha, assinaladas em muitas ruas). Responderam-me que atrás do prédio vizinho começava um trecho de dois quilômetros de muro.
Vencido o quase quilômetro do prédio em questão, cheguei ao muro. Uma construção bisonha, de uns dois metros de altura, feita de tabletes finos de concreto.
Foi erguido para “proteger” os cidadãos da República “Democrática” Alemã das maldades do imperialismo da vizinha República Federal Alemã.
Visto pelo lado ocidental, era só um muro, mas no lado comunista, era precedido de uma zona da morte, onde se postavam guardas armados, com ordens de atirar para matar à menor invasão.
Os cidadãos da RDA não demonstraram entusiasmo com essa “proteção”. Em verdade, sem o muro, não teria ficado ninguém para apagar as luzes, o que só evidencia o anseio de liberdade que nos caracteriza.
O mesmo acontece hoje com a Coréia do Norte e Cuba. Mas essas sociedades não têm força para mandar ao inferno seus tiranos...
5. Sobre muros.
Os EUA estão a erguer um muro na divisa com o México. Para diminuir o número de mexicanos que acorrem a seu território. O capitalismo norte-americano, mais selvagem, atrai mais gente.
Israel constrói seu muro, vergonhoso, para evitar a entrada de palestinos num território que lhes pertencia.
Frankfurt, 18 de dezembro de 2007.
Budapeste
Começa a aventura pelo Leste Europeu. Cidade pequena, se comparada com a interminável Berlim. Frio caprichado e neve.
Se parece com Praga, no geral. Saio agora para testar essa hipótese.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
A cerveja
Encorpada, de sabor marcante; pilsen, de trigo ou escura: a cerveja alemã é superior.
Uma caneca de meio litro já basta para o freguês sair marchando; duas são suficientes para derrubar um cavalo (o teor alcoólico é generoso). Os alemães entornam várias.
A Hofbräu, de Munique, é um templo para os apreciadores de cerveja. Uma bandinha bávara tocava umas musiquinhas folclóricas, em instrumentos de sopro. Tudo bem à vontade (isto é, de quando em quando).
Esperimentei uma weiß (de trigo). Depois outra, pilsen.
Desceram bem. O problema é a falta de banheiro nas vias públicas, depois...
As cervejarias de Berlim limitam-se a imitar as de Munique, sem o mesmo sucesso.
Ainda a Alemanha
Nao consegui, em Berlim, comprar um unico bilhete de metro por minha propria conta. Todas as vezes, ou alguém se oferece para me ajudar ou tenho de pedir ajuda, quando ninguem esta testemunhando meu embate com a maquina.
Hoje nao foi diferente, em que pese eu ter conseguido mudar o idioma para espanhol e ter encontrado diversas opcoes que em alemao me pareciam misteriosas.
As pessoas te ajudam, sao solicitas ou, no meu caso, sentem pena.
Berlim, ja encerrando, tem inumeras atracoes de nivel internacional, tipicas das grandes metropolis europeias: museus interminaveis, parques, pracas, jardins. E lojas de luxo.
Sao divertidas as lojas de carros, com carros-conceito em exposicao, o que lhes confere um bem-vindo ar de museu.
Lotus, Porsche, Ferrari, Bentley e Bulgatti: me impressionaram vivamente.
domingo, 16 de dezembro de 2007
Alemanha
Desembarquei na Alemanha sem pensar no assunto, sem estudá-la antes. Na pilha de livros ao lado da poltrona em minha sala figura a história da queda de Berlim, na Segunda Guerra.
Parei nos estertores da cidade, em abril de 1945.
As forcas sovieticas combatiam nos bairros da cidade, apos atravessaram milhares de quilometros desde Moscou.
Hitler preparava o suicidio, os "faisoes dourados" (nazistas de alto rango) escapuliam, muitos com destino ao Vaticano.
Berlim (e toda a Alemanha) seria retalhada em quatro partes, de forma a impedir que o coracao da Europa voltasse a reivindicar, algum dia, qualquer hegemonia.
Os estados comunistas, totais, se aguentaram na Europa por quarenta anos, um feito notavel, quando se conhece a insustentabilidade dos delirios socialistas. Depois, um pouco de lucidez conduziu cada qual ao leito normal da vida publica, onde cada pessoa cuida de seus proprios interesses e a somatoria é essa saudavel bagunca às vezes chamada capitalismo.
Inumeros crimes se cometeram naquela Guerra, por todos os seus protagonistas. Bombas de 500 quilos caiam sobre as cidades alemas, mesmo quando a guerra ja estava decidida, e nao havia alvo militar.
Como resultado, quase tudo que se ve na Alemanha é produto de restauracao, reconstrucao ou é simplesmente novo.
Berlim é um canteiro permanente de obras. O que é ótimo.
Kennedy, especialista em frases infelizes, exclamou: "estive em Berlim". Outra frase enigmatica sobre esta cidade é que "Berlim jamais será Berlim". Estive em Berlim, que me pareceu a própria Berlim. E daí?
sábado, 15 de dezembro de 2007
A noite de Berlim
Após a caminhada por Potsdam, a noite de Berlim. Feirinha, pra variar, quase em frente à Universidade Humboldt (onde, grosso modo, Max Planck inventou a Mecânica Quântica, esse delírio poético-cientifico).
Depois, uma cerveja, encorpada e deliciosa, na Potsdamer Platz.
Na volta, não resisti a um grelhado. Corte alto, estilo argentino, carne européia. Apenas razoável. Salada impecável.
Outra cerveja, igualmente encorpada, insanamente loura. Marcante.
Por ora, é dormir. Amanhã, Berlim, à pé, num passeio a zero dólar, zero libra e zero euro. Quanto será em reais? Vou perguntar.
Potsdam
Na periferia de Berlim, a pequena Potsdam é uma grata surpresa.
Cenário para o acordo que pos fim à 2ª. Guerra Mundial (pelo qual os líderes das três superpotências vencedoras fatiaram a Alemanha), Potsdam tem imenso jardim chamado Sansoussi, semeado de castelos e palácios.
Visitei-a nesta tarde de sol intenso desmentindo o inverno. Umas espanholas me fizeram gentil companhia ao Palácio Novo, naturalmente reconstruído.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Prova de Inglês
Antes da viagem, a prova. Nas dissertações solicitadas, mandei ver em termos pedantes e altissonantes, que deixaram tonta a professora. Infelizmente, o ter ficado tonta não a impediu de meter um "Zero, com louvor" no meu trabalho.
Hoje, até aula de fotografia já dei, em inglês.
Munique
O tíquete profetizava chegada às 10h04min. Chegamos às 10h02min. Tamanha impontualidade não é bem-vinda.
Ao desembarcar, lembrei que não tinha anotado nome e endereço do hotel. Após alguma hesitação, achei uma lan house. Tendo gasto metade do orçamento do dia (50 centavos de Euro), localizei o hotel. Ficava a uns 17 passos de onde eu estava.
Após o ritual da mala, saí para caminhar. Cidade lotada, repleta de acenos, apesar da chuva gélida e do vento. Almocei numa das mais antigas cervejarias da cidade e consultei a memória.
Na década de 1920, certo líder de arruaceiros entrou numa dessas cervejarias (não sei qual) onde estavam o governador da Baviera e anunciou, arma em punho, que, a partir daquele instante, todo o poder na Federacao Alemã lhe pertencia.
Apesar do ligeiro equívoco quanto à cidade e às pessoas a coagir, o governador, e outros líderes, assentiram com tão decidida tomada de poder e combinaram o que fariam a seguir. Os freqüentadores da cervejaria, menos afeitos ao jogo do poder, limitaram-se a deplorar aquela chateação.
Esse espetáculo ficou conhecido como "golpe da escada de serviço" ou "golpe da cervejaria", obra do sarcasmo dos frequentadores do lugar.
O arruaceiro se chamava Adolf Hitler. Anos depois ele empreendeu outro "golpe de mão", dessa vez com mais partidários. O episódio rendeu pouco mais de uma dezena de mortos, inclusive alguns policiais. Hitler cumpriu menos de dois anos de cadeia por essa bravata, e quase foi deportado para seu pais de origem (a Áustria).
Filarmônica
Philharmonie, em Munique. Cheguei em cima da hora. Eles ousaram começar sem mim. Convidado a deixar o casaco na recepção, restou-me a camiseta. Regata. Cavada.
As pessoas ostentavam excessiva indumentária: parte dos homens vestia fraque; parte empertigava-se em smokings. Alguns se atreviam a trajar meros paletó e gravata (logo aprendi a desprezar esses caras, evidentemente indignos de amizade).
As mulheres exibiam o trabalho de metade das casas de alta costura da Europa.
Não me importei com esse deslize. Quem sou eu para ensinar a essas pessoas o que vestir numa apresentação de orquestra?
Lá estava eu, com uma bota capaz de de suportar 40 graus negativos, uma calça de alpinismo e a heróica camiseta que me acompanhara por toda a semana.
O concerto foi bacana. Espero que esses caras tenham aprendido a lição...
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Chegada a Alemanha
Esnobada como mero centro financeiro da Europa, Frankfurt tem sim atrações de classe.
Sai a pé, sem rumo, logo após uma soneca reparadora (são 12 horas de voo).
Pretendia ver uns museus mas, para que ver museus, se voce pode ver a vida na rua? No caminho, enfiei-me numa feirinha e fui conhecer a moçada alemã, num fim de tarde.
Tinha barraquinhas de tudo, mas o que despertou minha ambição foi uma especie de churrasco alemão. Tinhas umas salsichas gigantes e carnes grelhadas.
Arrisquei os dois pratos e me dei bem.
Agora, uma autentica cerveja alemã e descanso, que amanha a coisa começa cedo: as seis vou para Munique, de trem.
Detalhe: as pessoas te ajudam na rua. E tentam te entender.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Notas
Após longa pausa, aqui vão algumas notas, necessárias:
1. A Venezuela disse não ao trombadinha da democracia. Surpreendentemente, Adolf Chavez teve seu golpe de estado frustrado. É raro. Mesmo um pais maduro como a Alemanha da década de 1930 sucumbiu ao canto da sereia de plebiscitos que mascaravam os estertores daquela democracia. Após algumas votações, Hitler enquadrou o Estado e o resto é o que se sabe.
Hugo Hitler queria a mesma coisa, mas foi ligeiramente incompetente, ou talvez arrogante demais. Ressuscitou a oposição venezuelana, culpada até aqui de todos os delírios do caudilho, por via omissiva.
2. Lula enfiou a viola no saco e terá de esperar mais alguns meses até lançar outros balões de ensaio para sua tentativa de golpe. A população rechaça o terceiro mandato, segundo o Datafolha, mas o que pode a população, contra a vontade do rei? O apoio de Serra e Aécio a esse confisco chamado CPMF é um sério desafio à nossa boa vontade.
3. Disse, há dois meses:
Embora com retoques, Mônica mostra que é abençoada. Já Renan expõe a vergonha do Senado. Ele vendeu a alma a Lula para vencer o primeiro round, mas terá de deixar a presidência da Casa. Melhor fora um pacto com o diabo.
Mefisto cobrou seu preço.
4. A Bolívia arde em chamas. Os EUA, sintomaticamente, mandaram seu especialista em países secessionários, num gesto que parece indicar qual o futuro da Bolívia.
domingo, 28 de outubro de 2007
O sonho de Dawkins
Richard Dawkins, decano de Oxford, escreveu vasta literatura de divulgação científica. No último livro (Deus, um delírio) ele pôs a mão num vespeiro.
Não há concessões. Resenhado por teólogos, o livro recebeu críticas.
Se Deus é definido pelos religiosos como o bem supremo, a própria vida e tudo que nela há de belo e valoroso, não temos dificuldade para entender as respostas raivosas. Deus é amor, mas afirmar que Ele não existe merece algo mais que uma resposta, embora não cheguemos aos tribunais da consciência da época de ouro do cristianismo.
Alguns estranham que o decano permaneça impune. Outros, como eu, que o público relute em compreender a batalha.
Para uma interessante resenha da obra, aqui.
domingo, 21 de outubro de 2007
O Delírio de Dawkins
Alister e, ao que parece, Joanna escreveram "uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins".
Estou irritado com o Alister (vou incluir a Joanna fora dessa).
Ele destruiu minha fé. Era uma fezinha de nada, bem pequenininha, mas era uma fé. Eu acreditava que deviam existir, em algum lugar inescrutável, verdades religiosas que eu desconhecesse, argumentos para contrapor a Dawkins.
Eu já tinha lido 32 páginas e não tinha encontrado nenhuma. Lá pela 70, bateu o desespero. Cumpri as 140 páginas impregnadas de um rancor bocó, uma coisa bem jeca, profundamente vexatória, porque não há nada mais vexatório que ser maldoso com alguém e fracassar.
Francis Collins, que perpetrou "A Linguagem de Deus" é outro "ex-ateu" (não há nada mais hilário que essa categoria). Faz proselitismo de uma espiritualidade vigorosa, desde que seja monoteísta e cristã. E se o leitor não quiser ser monoteísta e cristão?
Ele apresenta, aparentemente a sério, uma tese espantosa: a "lógica espiritual" sem, contudo, definir a expressão, o que desaponta, embora não surpreenda.
O homem chega a ser sincero em algumas partes do "livro", mas põe sua pouca credibilidade a perder com uma incrivelmente criativa "estatística" sobre milagres. Ou quando nos revela que, em algum momento, Deus teria impingido um espírito e uma "lei moral" ao pobre hominídeo em evolução.
Esses autores religiosos observam que "nos anos 60, diziam que a religião estava desaparecendo, substituída por um mundo secular" (Alister) e que, hoje, a religião retomou com força total. Será que Deus, que já é onipotente, precisa dessas "defesas" iradas? Se eles já ganharam a guerra, não entendo a histeria.
Nem me impressiona a atual moda religiosa. A psicanálise floresceu e nos aborreceu por mais de meio século; o comunismo alicerçou estados totais e as piores retóricas políticas por mais de cem anos.
Ora estão mortos (o comunismo da China inspira indulgência e o da Coréia do Norte e Cuba, suspiros de compaixão. Freud se mostrou um charlatão muito cultivado e muito aborrecido).
Não tenho dúvida de que, quando a atual maré religiosa virar, o secularismo chegará a extremos, para o bem e para o mal.
Muitos observam que o ateísmo teria pouco mais de um século. Com cerca de 2.600 anos, Deus/Javé ou sua interessante corruptela Jeová estaria em evidente vantagem.
Com que facilidade esquecem que o Homo sapiens, embora recente, tem significativos 200.000 anos!
Tão logo o excedente cerebral pôde engendrar, atribuímos significados engenhosos a tudo. E desde então a superstição nos acompanha, nas formas mais variadas e loucas. Quando os pequenos bandos de caçadores-coletores se agruparam em conglomerados sociais complexos, surgiram estados e religiões onde antes só havia superstição e relações de parentesco e amizade.
As religiões, instáveis, se transformam, ficam irreconhecíveis e desaparecem. A superstição, não.
Os autores adoram os deuses atuais. Usando duplilinguagem (na terminalogia de George Orwell), eles fazem a defesa possível de um conjunto de miragens que eles mesmos gostariam de abandonar, se tivessem meios. Não os invejo. Não tenho nenhuma pena dos milhões de deuses que morreram. Nem apreço pelos que habitam a mente dos crentes em todos os lugares.
Eu diria, com o gigante Peter Medawar, que esses autores só podem ser eximidos de desonestidade porque, antes de tentar enganar os outros, fizeram de tudo para enganar a si mesmos.
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