segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Zé Dirceu


Não vamos estabelecer uma meta para o tempo de prisão do Zé Dirceu e, quando atingirmos essa meta, a gente dobra a meta! (meta aberta de regime fechado).

Hoje fui acordado pela notícia da prisão do Dirceu guerreiro do povo brasileiro.

Não me conformo. Um homem tão bom - guerreiro do povo brasileiro - ficar pra lá e pra cá viajando em cima de uma pica preta... Perdão, mas esse é o nome oficial do jato preto da PF.

Certa vez, por acaso, ele pousou em Porto Velho e, por descuido, decolou com metade do tribunal de justiça e da assembleia legislativa a bordo... Um grande descuido.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Santa Marta

Casa Elemento é um hostel tão remoto que o mesmo Pablo Escobar teria dificuldade em me encontrar. Uma hora de jipe desde Santa Marta, uma hora no lombo de uma moto montanha acima.

Quando cheguei notei quatro coisas: 1. Que uma horda viking tinha baixado diretamente da Noruega, ou Islândia, ou mesmo Groenlândia; 2. Que essa bugrada resolvera combinar biquíni com botas até os joelhos. 3. Que o hostel se baseia em barracas e redes de dormir; 4. Que eu tinha entrado pelo cano.

Fui a uma cachoeira montanha abaixo. Subi no lombo de outra moto, ainda mais xucra. Na volta, a bermuda Mizuno, sintética, sofreu falha catastrófica, da forma mais constrangedora possível, e não havia substituta - calça, bermuda, nada.

Sem ligar pra essas sem-graceiras, aproveitei a piscina, propriedade dos ditos povos nórdicos. Sobreveio o almoço.

O barman combinava chapéu irlandês com óculos estrelados e coreografia. Apelidado "o doutrinador", não me inteirei dessa ortodoxia. Um americano, que também trabalha no hostel, empreendia bombas cada vez maiores na piscina, com a esguia sueca por desafiante e o bar todo por alvo.

Não conheci o cozinheiro. De bom grado o teria surrado pelo desperdício de tão bons ingredientes.

No hostel as pessoas costumam tardear sobre a rede, essa enorme hammock para doze pessoas (e um gato) estendida sobre o abismo. Lá embaixo, Minca. Mais ao longe, Santa Marta, e o Caribe em sprawl. 2015 se aproximava em linha reta, com seus negócios polarizados.

Iniciada a noite interveio a febre. Os mosquitos, discretos, desencadeiam reação alérgica que os guias esqueceram de mencionar, e os vikings sabem, a julgar pelas botas - alcancei a origem da moda.

Em volta da fogueirinha entabulei conversas com norueguesas, suecas e dinamarquesas. Tinha umas alemãs, e até neo-zelandesas, sem que o foco deslocasse da gente viking. "A invasão estava a caminho? Haveria clemência?", quis saber.

Quando o ano novo chegou a febre tinha cedido e a ceia apresentou-se quase tolerável. Quase agradeci ao chef.

Todos dançavam à beira da piscina, com o entusiasmo próprio à idade e o fervor de certas ervas aromáticas.

O que me lembra a subida a Wayna Picchu.

- Vamonos, lento! - disse a loira vertiginosa.
- Las noruegas son muy rápidas - desculpou-se o guia local, resfolegando, incapaz de acompanhar o ritmo das moças.
- Nisso de noruegas você tem razão - acrescentei, para reconfortá-lo.

Nos estertores da febre ocorreu-me a solução do problema da bermuda, e um simples casaco amarrado à cintura restituiu a decência e a tranquilidade. Qualquer idiota teria atinado com a resposta imediatamente, mas eu precisei de horas elaborando, na pura febre.

Quando saí, no dia primeiro, abruptamente a média de idade dos hóspedes voltou aos 17 anos.

Colômbia

Cheguei na madrugada a San Andrés. Rolava uma festa na cobertura do hostel, e nenhuma pessoa de bem se atreveria a dormir.

Dormi.

Na manhã, barco até Cayo Bolívar. Quarenta minutos de solavancos e caldos no barquinho exíguo e rápido. Ilha bonita, mas sem muita vida marinha.

Antecipei minha ida a Providência, ilha mais autêntica, a vinte minutos de avião, com uma barreira de corais realmente bela.

Providência é uma cadeia montanhosa em selva luxuriante. Tudo está na costa, com uma carretera que medeia os negócios entre a montanha e o mar.

Na ilha anexa de Santa Catalina, acessível por uma ponte flutuante, fica uma comunidade Arrozal, descendentes dos escravos que aqui aportaram séculos atrás.

Ali comi o melhor arroz com feijão fora da interminável fronteira brasileira. E um peixe fresco, com canja de entrada. No fogão de lenha. Precisa dizer que o suco, caseiro, rematava o carinho? Tudo por 15 reais.

Na volta a San Andrés, o La Regata serviu um atum de outro mundo. Selado no azeite, crocante, em pimentas. Eu já tinha comido atuns impensáveis - na Grécia e em Rarotonga - e, portanto, sabia que a magia não tinha como se repetir.

Bem, eu estava errado. Abalado, exigi sinfonia de sabores de sobremesa, e lembro que trouxeram torta de coco, musse e um doce que não saberia fazer justiça.

Sim a limonada. Sabem, costumamos pensar nelas em termos de "aí, que azeda" ou "Deus do céu, adoçaram impiedosamente".

Pois eu vos digo: nada no mundo se compara à limonada com coco do Regata. Tentei outra, batida em neve e coco no Miss Célia. Muito boa, mas sem comparação. A limonada do Regata nos absolve das incertezas e agruras de aviões, barcos, ônibus, táxis, recepções de hotéis e passeios cheios de turistas sem noção.

E tem o chincharrón, carne de porco profundamente frita, com a pururuca. É o mais típico da Colômbia, creio.

Bogotá.

Centro histórico bem América Latina, com palácios e sobretudo igrejas intermináveis. Subindo rumo à montanha a gente entra por umas ruelas que lembram cidadezinhas do interior.

Visitei dois supermuseus. No Museu del Oro tudo é de ouro e lindo. O Nacional tem vários Boteros, cujo museu estava fechado. Eles aproveitaram que iam fechar no natal e véspera para também fechar na antevéspera, zoando a agenda dos turistas.

Andrés Carne de Res.

Massive! Um bar-restaurante sensacional. Até o juiz Sérgio Moro cairia na esbórnia ali. Uma bandinha se aproxima de sua mesa e toca uma marchinha. Clarineta, bumbo e outro. E te passam a faixa presidencial.

A escada que leva a não sei quantos andares revela um forno em que lavram labaredas ocasionais.

Andrés: a festa é obrigatória; o chope, impecável, mas a carne estava dura.

Taxista.

Contrariando o bom senso, não esperei o taxi do hotel e peguei um na rua. Pra quê!

Primeiro, faltava metade do braço ao taxista. Depois, notei que ele não sabia onde ficava o museu do Oro. Ligou para alguém, que lhe passou as coordenadas. Para nada. Ficamos rodando horas. Até eu descobri antes dele onde ficava.

Pedi pra descer. Paguei o que tinha no bolso, 10 reais, fração do que ele esperava.

Então é Natal.

"Pessoas não devem praticar o bem só no Natal". Sério? E quem não pratica o bem NEM no Natal, hein?

Saí de Bogotá após o café e ganhamos as montanhas até Leyva, sorvendo o frescor da cordilheira, que se dava em pêssegos.

Leyva é um primor colonial e, no Mercado Municipal, comi barbacoa de cordeiro, junto com cerveja artesanal. Insano. O restaurante mais bonito que já vi está aqui e fica numa construção histórica.

Hospedei-me numa finca colonial debruçada sobre a cidade. Nestas montanhas nasceu a Colômbia, se os livros de história não me enganam.

Amanhã, San Gil.

No Renacer se acorda entre o canto dos pássaros. Lá embaixo o sol vem construindo uma cidade aos poucos, sem alarde. A propriedade, uma fazendinha colonial, é toda charme e acolhimento.

Daqui a pouco saio para San Gil, para aventuras. 

domingo, 21 de setembro de 2014

A Prisão da Fé


Laurence Wright descreve, em tom jornalístico, a saga de L. Ron Hubbard e sua cientologia, o horrendo pesadelo que galgou o duvidoso status de religião, muito em função da incompetência do IRS, a receita federal norte-americana ("hostilidade tributária baseada nas escrituras", alguém definiu).

Hubbard era uma fraude ambulante. Em certa foto, ele aparece com um e-Meter, aparelho por ele inventado e usado para medir a "dor das plantas", entre outras coisas muito úteis.

Lá pelos anos 1960 a cientologia estava em gestação na cabeça atormentada de Hubbard e isso explica a apelação ficção científica da seita (quando comparada a uma de dois mil anos, por exemplo), mas principalmente explica a ausência de artefatos mais complexos, como os multiversos, inerentemente delirantes e perfeitos para um amontoadinho qualquer de tagarelices místicas.

À certa altura Hubbard ficou pra lá e pra cá em sua barcaça de 3200 toneladas, antes usada para transporte de gado, fatigando águas mundo afora com discípulos bovinos.

Procuraram tesouros escondidos na Sicília e Calábria; na Córsega, buscaram uma estação espacial subterrânea e muitas outras coisas do gênero fizeram, com sua Sea Org em orgias etílicas.

Após algumas peripécias, e uma sentença criminal de 4 anos à revelia, na França, Hubbard foi dar com os costados no Queens, onde passeava de peruca e chapéu, para evitar a polícia.

Em algum momento morreu, deixando um bando de seguidores desmiolados, e um empreendimento corrupto com fins lucrativos.

"A cientologia é, muito provavelmente, o culto mais implacável, mais classicamente terrorista, mais litigioso e mais lucrativo que o país jamais conheceu", sintetizou Cynthia Kisser.

Que dizer desses desatinos?

Pode-se pensar que essas seitas nascem da pura ignorância, mas esse pode não ser o caso. Os seguidores do Templo Solar, por exemplo "eram membros cultos e prósperos de suas comunidades, com família e emprego fixo; mesmo assim, tinham se entregado a uma fantasia mística de ficção científica que os transformou em assassinos, suicidas ou vítimas indefesas".

Apesar dos milhões de adeptos que a cientologia afirma ter, o Censo norte-americano estima em míseros 25 mil o total de americanos vítimas dessa sandice, metade da comunidade rastafári.

Concluo: se Hubbard foi um Hitler em busca de uma máquina de fazer dinheiro, Miscavige é um Stalin, com as bênçãos do IRS. Patético.

domingo, 24 de agosto de 2014

Pacífico sul


Cheguei uns três dias após deixar minha casa.



Fui direto ao barco e ao resort. Octopus é um lugar gostoso, com recifes bem em frente ao bar, o que favorece a migração deste para aqueles, e vice-versa. 



Fiquei quatro dias em recreio, e saí para o Blue Lagoon, outro hotel bem estabelecido entre corais e recifes. 



No terceiro dia, nem eles confirmavam o vôo até Nadi, nem a estadia mais uma noite. Acabei no hotel ao lado, sem o vôo. Jantar dançante, se assim pudermos chamar. Primeiro a dança, típica, depois o jantar. Quem não dança não come.

Talvez por isso resolvi aceitar quando uma matrona fijiana veio me tirar pra dançar. 

Não estava muito animado com a dança, não, com a tora de fijiana que me coube por par, até que vi o alemão meu vizinho agarrado a um negão de uns dois metros, para mais, todo sorrisos. Deus do céu, como a sorte pode ser madrasta!

Depois fomos ver o jantar ser desenterrado, embrulhado em folhas. Batatas, legumes, pupkins, mandiocas. E as carnes.

Serviram um carneiro delicioso, um peixe alienante e clams gigantes ao molho. Batatas doces e mandioca, tudo nas entranhas da terra. Não sei como figurar a farra.

No Octopus tivemos jantares memoráveis e, no Blue Lagoon, as mais típicas comidas. Tampouco o pernil de carneiro era novidade (já tinha lutado com pernis de carneiro em Fiji) mas aquele.... Oh, boy.

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No dia da saída, na última hora eles confirmaram o vôo, e havia que se dirigir à ilha-resort Turtle. Lá me disseram que, avião, nem pensar, mas que um helicóptero era possível. 

Voei nesse helicóptero atrasado, preocupado e embasbacado com as Yasawas, do alto. 

Pousando em Nadi, me informaram que não haveria vôo a Port Vila. Após toda sorte de desencontros, o vôo inexistente se ultimou e saí com três horas de atraso, já perdida a conexão à ilha Tanna, ao sul.

Em Port Vila a malária não é infrequente.

Pois nessa Port Vila me acomodaram em um resort cinco estrelas, com 5.000 vatus para gastar em comilança.

- Em comilança, ouviu bem? Você acha que consegue, Manelim?
- Ora você me conhece, tenho um plano.

E assim, no buffet daquela noite me acabei em camarões insanos, indescritíveis, preparados como se o mundo findasse logo mais e as balanças tivessem sido abolidas. Também havia saladas (não tive muito tempo para saladas, não),  clams gigantes, os ovos beneditinos e muitas outras coisas que não quero figurar, agora.

Sem falar nas massas, com o acréscimo ilícito de queijos franceses, sobremesas, sorvetes e frutas.

Logo eu estava prontinho para o café da manhã, que não foi menos escandaloso.

Após esse café, aeroporto. A passagem, inexistente para aquele dia, apareceu no primeiro avião para Tanna, e nele embarquei, sôfrego.

- E como você pretende voltar, à nado? - perguntou a moça da Air Vanuatu, vendo que eu não tinha passagem.

Tanna é um lugarzinho mágico, famoso por seus aldeões, a criançada pululante e pela malária, nada infrequente.

Subi o Yasur, nas deliberações da tarde. Melhor: subimos, porque, no caminho, o motorista parou a camionete na aldeia e fez subir toda a criançada, até um moleque pelado. Umas quinze crianças. Depois, passado o centro, paramos para dar carona pra mais cinco!

E lá fomos, morro acima, morro abaixo. 

O vulcão, super ignorante, vomita lava bem na nossa cara, com estrondos metálicos, de salva de canhões raivosos.

Iniciada a noite, bordejamos a cratera ouvindo as pancadas, as revoltas. Ondas de choque talhavam o fumo envolvente, e sabíamos que novas fúrias eram inevitáveis. 

Sofremos esse arenga um tempão, vendo a lava escalar a encosta e cair de volta, onde um rio de fogo oficiava ora preenchendo, ora liberando câmaras, enquanto a terra comunicava sua dor. 

Quando por fim o vapor sulfuroso nos envolveu, todos demos baixa e corremos ao hotel. Mosquiteiros que eram só furos prelibavam malárias noite adentro.

No dia seguinte toquei ao aeroporto, sem passagem, só para ver qual é que era. Fui acomodado de primeira, e voltei a Port Vila, para passeios e simpatias.

Fui a uma cascata, mas principalmente à ilha Lelepa, para o melhor snorkelling desde Fakarava. Jardim submerso, visão de 60 metros, águas mornas, peixes abundantes. O que mais pode querer um turista?

Notei a ausência de tubarões nos recifes, e os guias deram de ombro. Ao contrário do Tahiti, onde eles praticamente te chamam e te desafiam desde o quarto, por aqui somente em mergulhos mais profundos se tem a companhia dessa gente bravia. 

Agora, Tonga. As baleias mandaram dizer que não vêm, ou, se vêm, não agora. Que fazer?

Fui a uma ilha próxima, e tomei o vôo para Vavau.

Uma hora de atraso, embarcamos no pequeno turboélice chinês. Mais uma hora e chegamos. Peguei a bagagem de mão e esperei a mala, triunfante. 

Ninguém mais esperava a mala.

- E o negócio da mala? - Perguntei à fijiana que sentara ao lado.

- Sabe de nada, inocente! Não vês que tornamos ao aeroporto de partida, abestado? O avião quebrou! (ela fez sinal de um avião caindo, pra facilitar meu entendimento: buuum!).

Fiz a tradução a partir do possível inglês da fijiana, de forma que alguma expressão idiomática pode ter me traído.

Após algumas horas no solo, e outra no ar (levamos o mecânico junto, vai que...) Vava'u!

Táxi pro hotel, que não havia. Cinco hotéis depois, terminei em Port Wine, que me pareceu bacana, e tratei de conquistar a benevolência dos cachorros da propriedade, e arredores.

Num lugar como o Pacífico Sul, às vezes a amizade dos cachorros é o primeiro item do turista consciente.

O grande malhado preto e branco era gordo e bonachão. Foi o primeiro a vir cumprimentar. Uma cachorra enorme, gárrula, que eu tampouco saberia precisar a raça, veio toda se arreganhando, com seus respeitáveis marfins afiados. 

O costume dela e correr atrás de cachaços enormes e ameaçadores, pondo-os rua abaixo.

Outros cães fui encontrando na estadia, e logo granjeei-lhes duradouro afeto. 

Sabe, quando você volta do jantar, na rua escura, e antes de abrir o portão, e prudente certificar-se da estima dos cachorros - de toda a cachorrada - antes de realmente adentrar a propriedade, pra que eles sintam a diferença entre você e um... porco, por exemplo, por mais que, dizem os amigos, no meu caso essa diferença seja mínima, acaso existente.

Essa história com os cães me lembra um episódio em Páscoa. Uns ingleses ficaram de me buscar no hotel para irmos ver o sol nascente apostar contra os moais. Perdi a hora e voei para a rua, a ver se ainda me esperavam. Um cachorro, que seguramente vira o carro vir e me aguardar, e depois se afastar, se encostou em mim, fornecendo o apoio moral de que eu necessitava. 

Os cachorros das Yasawas costumam logo contrair amizade, sobretudo ao redor do exíguo prazo de jantares e lanches. E amizade sincera. 

"I'm not dog no..."

25 de junho.

Samoa.

Cheguei a Samoa. Na verdade, estou aqui há três ou quatro dias, e logo começa a operação retorno, em três escalas: Apia, Nadi e Auckland. Daí, Santiago e Sampa, assunto de aeroporto, e chego em casa, que espero achar igual.

Fui aos Blowholes, na costa sul (jatos d’água à beira mar que juram os céus com estrondo). A onda ganha energia ao atingir o pavimento vulcânico, entra por falhas e estoura a dezenas de metros de altura, provendo um sorriso.

Samoa tem praias lindas e desertas. Uma, de areias pretas, é a perfeição simpática. Primeiro, fiquei numa fale (cabanas abertas, cortinas por paredes, bem na areia, com música ambiente fornecida pelo mar), mergulhando e calibrando os instintos sob sombras frutuosas que tocam a água.

A maré oscilava seus humores. Eu aferrado a Machado de Assis. Estou no oitavo romance do mestre, nesta viagem, mas prometi não reler Memórias Póstumas ou Dom Casmurro.

Outros livros li (Complacência, o Retrato, Darwin vai às Compras, Do que é Feito o Universo? etc), o que não significa que a viagem foi ruim. Apenas teve vôos, escalas, aeroporto e esperas demais.

E muita praia linda, que pedia romance, água de coco e espírito leve. De vez em quando um snorkel, que depressa se larga.

Depois, toquei pro nordeste da ilha, para mais fales, águas calmas e mergulhos.

Em casa.

Saí às quatro da tarde de Auckland e, às dez da noite, estava em casa. Que achei igual. 

Menos por um armário, que desmontara no anonimato de madrugadas desfavoráveis. A Todeschini se encarregará dele.

Quebrei a promessa de não reler Memórias Póstumas. E pra distrair, 13 peças do teatro de Nelson Rodrigues.

sábado, 17 de maio de 2014

Aventura no Jalapão

Ao norte de Palmas, por uma estrada ingrata em poeira e lonjuras, situa-se o Jalapão, realidade geográfica que agrega dunas e rios, ajustados a um cerrado amarelo.

Lá nossos guerreiros quiseram férias. Pescadores, no ordinário, eles talvez iam velejar o rio em zodíacos, remando. Um velho Unimog quatro eixos os sacudia, na poeira.

Amigos de farra, pinga, batizados e safadezas, os integrantes dessa liga malvada não estavam de brincadeira. A farra atraía, a sem-vergonhice unia e a empresa ou o casamento dos filhos lhes davam ares de “família”.

Que era só fachada para a buliçosa cafajestada que congregava aqueles bandidos, sexagenários.

Libério, sessentão, usava cabelos brancos, dentes amarelos e anel de farmacêutico, para nada.

Altamir se dizia jipeiro e conduzia uma loja de artigos de pesca.

Katchaça, policial rodoviário e piloto de paraglider, não tinha realmente como explicar o patrimônio, já descontado o zelo com que assistia na casa das meninas.

Wilson, bem. Ora nos ocuparemos do fácil Wilson. Sorriso, vida, obra e (principalmente) ética fácil. O sorriso do Wilson, como tudo o mais, era de ameia; a ética, contexto-dependente. Roliço, mais pescoço que gente, o Wilson encerra uma ofensa àqueles que acreditam na humanidade. Ou pelo menos um desafio.

Wilson tinha um problema. Ao longo de sua vida, surgiam e desapareciam chácaras, o que é mesmo um aborrecimento. O autor destas notas, por exemplo, nunca teve acessos de chácaras em seu patrimônio, mas o Wilson sim, twice, à salvo da inveja, do rancor do Fisco. Aposto que o leitor nunca pensou profundamente uma chácara ou, se o fez, foi só em desfrutes.

Pois eu vos digo: era uma vez, um que se chamava Wilson e tinha uma chácara. Fatalmente, cedo ou tarde a propriedade contrairia um caseiro. Estudemos de perto esse caseiro adventício. Apresentado, guloso, mais indigente que gênio, ele tinha uma bananeira. Melhor: a chácara tinha uma bananeira, em frutos. Wilson namorou o cacho um tempão e, dado o gostoso dourado próprio aos frutos, previu colheita incontinênti para a próxima visita. 

Se o destino não fosse tão mesquinho. No agendado veraneio a senhora Wilson escorrega e quase se arrebenta no chão forrado de cascas de banana, que o caseiro ignorava.

Pra mim é difícil explicar o Vílson. É de quem mais gosto, o que não quer dizer tenha renunciado à necessidade de enforcá-lo. Culparemos o Wilson por tanto azar com chácaras? Seria excessivo e tedioso. Enforcaremos o Virso? Provavelmente.

Mas o Libério. Será honesto falar do Libério? Quem sabe sim. Não quero falar do excelente Libério, mas alguém terá de exercer essa fadiga (e denunciar o degenerado), antes que o tempo o faça santo e profeta (do ateísmo), acima do bem e do mal.

Elejo Libério o mais inadmissível do grupo, fosse mensurável a maldade desse bando de devassos, teóricos e práticos.

Consta que a expedição era ecológica. Logo, todo o lixo devia ser coletado, sem exclusão dos dejetos do banheiro. Outros que não depravados ateus teriam postado o banheiro químico no lugar mais discreto, com paredes respeitosas evitando olhares constrangidos para os negócios que ali sucedem, sem que ninguém tenha culpa. 

Um trono aberto – zona franca – se instalou bem no meio da praça recreativa que toda noite se improvisava em algum canto aprazível rio abaixo, e nele grassavam iniquidades.

Primeiro a reinar? Libério, o Amazônico, esse carnavalesco prenhe de escândalos ruinosos e difíceis. 

Em tempos ele fez uma dúzia de cirurgias, cuja necessidade permanece um mistério até para os médicos. Acontece que boa parte dessas cirurgias envolveu como direi, sem ofender famílias honestas e trabalhadoras? o edicétera liberiano. 

Libério operou em segredo, com médico desconhecido, fugindo ao tipo errado de notoriedade, especialmente em família. As intervenções tiveram sucessos variados, dependendo do ângulo que se olhe: uma deixou nosso Libério tão largo, e com o perímetro tão mal definido, que passou a ser chamado "estuário", e a decência exigia o uso de fraldões.

Um Libério assim expandido, em cueiros, não podia prevalecer num mundo em geral hostil. Uma cirurgia reparadora deixou Libério tão fechadinho que os frutos do esforço – se assim os pudermos chamar – eram finos como caneta esferográfica, e não ornavam com o aplicado glutão que sabemos.

Nas pescarias, ele arriava as calças com a sem cerimônia com que um petista coloniza e arruína uma estatal, e do barco mesmo cravejava o rio com poemas aromáticos. Data dessa época o apelido pouco lisonjeiro: "poeta". 

Com a sucessão de cirurgias, não sabíamos em que fase Libério estava, suas aspirações e com que diâmetro obrava.

Praguejando e lançando injúrias, do alto do trono unificado ele insultava o mundo com miséria montante. E a turma pirava: O rei vai obrar!

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Segundo na hierarquia, Saulo, o Horrível, se esforçou na gritaria e impropérios, mas não era páreo para a majestade liberiana. 

Pacheco se afetava fotógrafo, e excedia em nikons e acessórios. Num passeio, gostou de uns marimbondos, que gostaram mais ainda dele. 

Tal sorte de caganeira vitimou Juvenal que, bem, deixa pra lá.

Apesar de tudo, receio seja meu destino prestigiar Libério, em detrimento de iguais heróis que povoam estas páginas.

Conseguirá nosso homem se desincumbir de seus misteres, assinalar uma biografia? Certa feita ele "se permitiu" indevidamente num elevador lotado.

– Sinto que de mim saiu virtude – mofou, para o público entrevado na cabina.

Virtude, ele disse virtude!

Em outra feita, estacionou a sofrida CG 125 em local proibido. A essa altura já se sabe: Libério sóbrio é ficção; à pé, um alvo legítimo; de moto, uma obscenidade provida de cofrinho. Pois ele abandonou essa moto à saída de uma rotatória. Dois guardas, dentro da viatura, deitavam poemas ao talão de multas, à vista da absurda espingarda enferrujada, prontamente submetida a guincho.

Que dizer desses consumados pervertidos? Bêbados colossais, trataram de dar expediente no Jalapão, e não é possível precisar a licitude dessa bossa.

2014.