quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Literatura

O (improvável) leitor pode se perguntar por que perder tempo com Chomsky. Quem se der o trabalho de inventariar as gôndolas de "lançamentos" e "mais vendidos" vai entender o porquê. Os livros agora deram para se chamar "quem comeu meu queijo", "quem tomou minha sopa", "quem comeu meu hambúrguer", quem comeu isso ou aquilo. Desaprovo toda essa comilança. Pior: existem loas a pessoas como Bush, Lula e Chavez. E também críticas (algumas ótimas, outras desnecessárias). Os bruxos, fadas, duendes, elfos, grifos, dragões da maldade e magos agora deram para frequentar academias. Desconfio que algumas pessoas deixaram de considerá-los mitos inofensivos e passaram a acreditar nesse entulho medieval. O soterramento do pensamento criterioso e estético é um risco que não podemos desprezar. Chomsky representa um enorme desafio, porque obriga a pensar, duvidar e analisar. Sigamos com Harry Potter.
P.S.: além dos ataques ideológicos ao pensamento evolucionista, Chomsky foi flagrado em elogios ao genocida Pol Pot. Se for verdade, esse fato, por si só, invalida tudo de útil que Chomsky possa ter produzido.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Lista de intelectuais

Li, dias atrás, que Noam Chomsky foi escolhido o mais importante intelectual vivo, e que Richard Dawkins ficou em terceiro, por um júri formado por intelectuais de todo o mundo. É difícil falar de Chomsky. Há dois deles. O primeiro é o maior lingüista que o mundo já produziu. Muitas galáxias além de qualquer coisa que eu e você, ótimo leitor, possamos entender. O pouco que penso entender de Chomsky me foi passado por Steven Pinker: ele defende a tese de que a linguagem não é inteiramente aprendida, sendo inata, em grande medida. As crianças, segundo Pinker, não são instruídas em todas as regras necessárias a uma lingagem, mas antes as intuem, mediante estruturas mentais inatas (herdadas). Esqueçamos as estruturas profundas e outras enormidades, e passemos ao ativista político. O segundo Chomsky faz ataques devastadores à política externa norte-americana (e à de seus satélites), absolutamente impiedosos. Veja-se o ataque à política australiana no Timor, ou à política ianque no Haiti, Iraque, África, Vietnã, etc... Seu particular ataque aos Kennedy é capaz de deixar o mais rancoroso anti-americano com pena do clã. Sua visão crítica oscila entre o sombrio e o ceticismo desenganado. No entanto, Chomsky parece necessário. Num mundo de Bush e Putin, Lula e Chavez e Mr. Risadinha (Tony Blair), ele obriga a pensar. Pena que este seja um passatempo tão aborrecido, para tantos. Estou orgulhoso de que Dawkins, decano de Oxford, esteja na relação. É meu mestre em biologia e seu entorno. Seus livros são de uma beleza maravilhosa; um alívio diante da tsunami de livros de auto-ajuda que arrasa o mercado e estiola o pensamento. O cientista, que ocupa a mesma cadeira já ocupada pelo gigante Isaac Newton, tem idéias que nos libertam. Penso que a lista é justa. Brasília, 25 de outubro de 2005.

sábado, 8 de outubro de 2005

Aniversário

Não poucos rituais impostos pela sociedade me aborrecem. O aniversário não é um deles. Nesta minha nova apresentação (não revelaria minha idade por nada nesse mundo. Digo apenas que agora posso me candidatar à presidência da República) pretendo ser mais acessível aos sonhos. E também ser menos preconceituoso com os erros: meus e alheios. Não tive tempo de reler Borges, até agora, como sempre faço em meus aniversários, mas escutei músicas, e também sorri. Deveria, no mundo, haver mais motivos para sorrir. Estou pronto para defrontar-me comigo mesmo, e com minha solidão. Já posso gerar um filho.

domingo, 2 de outubro de 2005

Mais domingo

Chego de Minas, cansado. O avião atrasou, como costumam atrasar os aviões, e eu sem nada para ler (o jornal acabou na espera, no saguão. Preciso de jornais mais alentados, para esperas realmente longas...) Hoje ainda estava em Diamantina, cidade ao norte (ou noroeste?) de Belô, já adentrando o vale do Jequitinhonha. A cidade descansa sobre uma encosta íngreme, e dá para sóbrios paredões de pedra, do lado oposto do vale. Subi ao campanário de madeira de uma igrejinha, com dois sinos afinados. Também visitei a mais antiga e outras tantas igrejas (por pouco não me converti, em meio a essa tonta peregrinação). A casa de Juscelino (o presidente) é bem acanhada, no alto de uma rua impiedosamente íngreme. JK era leitor voraz, à Cervantes, segundo ele mesmo, e passou uma temporada em Paris e Berlim, no início dos anos ´30. O quarto de Juscelino criança , a cozinha, e as frases sobre sua mãe e irmã são memoráveis. Mas desconfio de populismo nessas memórias. O museu do diamante não merece esse nome, e nem mesmo uma visita. Diamantina, nessa minha primeira visita, não impressionou tanto como Ouro Preto. 2. Da comida mineira. Domingo, duas e meia da tarde. Chego de Diamantina e, maroto, marcho para o Xapuri. Pátio adornado com mesas em tábuas rústicas, dispostas em nichos e terraços, habitados por uma gente faminta e gárrula (a gente das Minas). Atendimento demorado. Cada qual mais glutão, eu e Márcio (o taxista) atacamos as crocantes costelinhas de porco, que foram dialogando com o feijão tropeiro, os torresminhos e a couve bem refogada, verdíssima. Distribuímos os vastos sabores ao longo de uma curva da mais legítima fome, própria de quem emerge do vale do Jequitinhonha. Após assaltar cada travessa, repetindo-as sem a menor cerimônia, seria ilícito qualquer olhar em direção aos doces, não é mesmo, ótimo leitor? Lícito ou ilícito, atacamos os doces, claro que sí. Toda visita a Minas, o mesmo naufragar dos (cada vez mais severos) regimes. Torresminhos, feijão tropeiro, doces caseiros e outras tormentosas conspirações daquela cozinha: nenhuma força de vontade é válida contra Minas. É o que venho dizendo (e ninguém me escuta): não vá a Minas. 3. Das coisas estranhas. Algo de muito clandestino acontece em meu apartamento. Não estou bem certo, mas parece que o invadem, sabe-se lá com que propósito de me enlouquecer. Não tenho provas dessa invasão, exceto que minhas roupas estão, estranhamente, ficando menores. Menores não seria o termo, talvez, e sim apertadas. É constrangedor. De todas as vezes que confidenciei essa minha recente e inesperada dificuldade, percebi que minhas conclusões foram recebidas com reservas. As provas são escassas: de fato, calças, bermudas e camisas estão ficando apertadas, embora, falazmente, seu comprimento não oscile. O diabólico é que não há marcas de recosturas, e a D. Léia, minha lavadeira, não detectou qualquer aspiração sediciosa nas roupas que lhe submeto. Na ausência de qualquer outro movimento de minhas roupas, e na inexistência de provas das invasões, uma dessas pessoas chegou a perguntar, suavemente, se eu não estaria engordando. A auto-evidente monstruosidade dessa insinuação deveria bastar para que ninguém, nunca mais, a cogite, nem dela venha a conhecer. Mesmo sem o testemunho de balanças, eu, de fato, não estou engordando (é importante que o leitor alcance esse axioma, ou, pelo menos, o creia). Eu, Gerson Noronha Mota, que confesso todos os chocolates, os talharins, as picanhas e muitos outros crimes, tanto grelhados como assados, definitivamente não estou engordando. É uma verdade. Para terminar, apresento aqui um novo verbo, risonho, originalmente estampado no sítio aboboral (um sítio tem preciso direito de se chamar aboboral): eu malufo tu dantas ele severina nós valeriamos vós delubais eles jefferson! Os colegas de grupo de trabalho não acharam engraçado esse verbo. Não importa. Há um verbo por trás desse poliverbo, que é lindo e cívico. Grande abraço, Gerson

domingo, 25 de setembro de 2005

Domingos

Há muitos domingos escondidos sob a aparência enganosa de um único domingo. Nos meus cabem leitura e dúvidas. Os jornais mentem com assombrosa lealdade. Às vezes os troco pela tela plana, que dá para o mundo. Rarefeito em minha casa, meus móveis assumiram que eu não existo e que a multiplicação de exauridos jornais é fenômeno inexplicável (confidenciou-me a cômoda). Eles são reais, mas, sem mim, também carecem de verosimilhança. Em verdade, durante as muitas viagens eles existem, mas emitem estranha escuridão, e se rearranjam um pouco menores, no que divergem, algo desairosamente, dos leais móveis que sonhei para meu apartamento. Desconfio que também eu divirjo nessas quase viagens, e ao não me encontrar reagrupo-me em tantas formas de quereres; sou levado a assumir valores não neutros de saudade. Na gira do mundo, assiste em mim outra pessoa, titular de paixões e vagares.

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Naviraí

A todos que me acompanham (com avidez): Estou em Naviraí, para outra missão oficial (amanhã cedo). Hoje, Sete Quedas e Paranhos; ontem, Eldorado. Preparo a viagem da China (e também Índia, Camboja, Vietnã, Tailândia...) para dezembro. Não há o menor risco de algum cobrador me encontrar em casa. Na próxima semana (detalhando a agenda), vêm Belo Horizonte e Diamantina, que ainda não conheço. Devem existir boas coisas para fazer por lá (além de trabalhar, é claro). Estou feliz com certa renúncia, apreensivo com certas necessidades de depuração. Abraço a todos.

domingo, 11 de setembro de 2005

Mensagem de domingo

A todos que não quiseram, ou não puderam dormir numa manhã chuvosa de domingo. Fecho a última página de "História natural da religião", de David Hume, tradução de Jaimir Conte (Unesp). Já estava cansado de ler fragmentos. Este foi um dos poucos tomos filosóficos que leio de ponta a ponta (os outros foram de K. Popper, Wittgenstein e Nietzsche). Hume tem intuições profundas, atrapalhadas pelo contorcionismo de afirmações negadas e negações afirmadas imposto pelas ferozes "autoridades" religiosas de então. A Igreja da Inglaterra, e suas posições, teve de ser preservada, com todos os prejuízos desse sectarismo. O catolicismo, e doutrinas quejandas, pôde ser atacado sem problemas. Duzentos e vinte anos não terão passado em vão. Libertos todos os filósofos das cadeias religiosas, alguns foram (alegremente) se entregar a basiliscos, como Heidegger, filósofo de todos os nazismos. Outros perderam-se em estamentos medievais, vastos continentes impossíveis, como são as filosofias de Espinosa, Leibniz e Pascal. Alguns contemporâneos adentraram águas muito rasas, e tornaram-se filósofos insoletráveis (Hilary Putnan, Noam Chomsky) ou pensadores indecidíveis (Roger Penrose et alii). A Escola de Frankfurt, com a suspicaz missão de tornar Marx bem-composto, não produziu nada digno de menção. Do neo-frankfurtismo, algo de Habermas, com seu enfoque exagerado no "discurso", pode se tornar perene (embora eu duvide). Adorno, Durkheim? Ah, fala sério... Entre os pensadores lúcidos e legíveis, fulguram as estrelas de Daniel C. Dennett e, num quadro mais restrito ao pensamento biológico-evolucionista, E. Mayr, R. Dawkins e S. Pinker. Passados dois séculos desde Hume, o problema religioso involuiu para uma mera questão de polidez: respeita-se a opinião alheia. E, num mundo assim opiniático, todas as verdades se equivalem, embora não se sustentem epistemologicamente. Provavelmente, Hume ficaria decepcionado. Após os jornais, mergulho em sua obra máxima (é um domingo).

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Cena literária

I. Ontem, li as páginas iniciais do Diário de um Mago, de Paulo Coelho. Pelo que me haviam dito, Coelho não é tão ruim assim. Bem, ele é, sim.

Ele começa simulando uma cerimônia “mágica”, onde receberia um montão de poder, enfeixado numa nova espada. Após enterrar a antiga (em Agulhas Negras), prepara-se para apoderar-se da tal espada, mas o “mestre” o impede, pisando-lhe a mão, argumentando com uma suposta sede de poder, ou seja lá o que for. O argumento prossegue demonstrando quanto devemos ser humildes, e que o verdadeiro poder não está em ritos “secretos”, “iniciáticos”, nem em “poções mágicas”, mas em cada um de nós. Quer dizer, então, que não devemos perder tempo com magos e bruxas? E que mais? Será que acrescentar uns duendezinhos ao nosso imaginário nos fará mal?
O livro é tão ruim, mas tão ruim, que terei de lê-lo até o fim. Nunca imaginei um livro assim, genial em sua idiotice. Só agora entendo a onda esotérica que ensorcela o mercado editorial: sua finalidade é proporcionar munição para que escritores de talento façam a justa crítica dos costumes e crenças modernos. À semelhança das histórias de cavalaria à época de Cervantes, os livros esotéricos e de auto-ajuda resultarão lindas sátiras.
É impressão minha ou os leitores estão sendo maldosos, ao fingirem que gostam dessa subliteratura? Bem examinada a questão, vê-se a necessidade de não desdenhar Paulo Coelho e similares.
II.
Continuei a leitura (sempre na livraria). Realmente, uma linda estorinha, hein, seu Paulo? Quase fui às lágrimas com os rituais sugeridos pelo mago. E com a épica caminhada até Santiago de Compostela. Vamos devagar, vamos seguir de pertinho nosso bruxo (é o único de que dispomos). Ele começa numa cidadezinha francesa. Pega umas coisas com uma francesa rabugenta e vai em busca de seu guia. Encontra um cara de olhar enviesado (estranho, se preferirem – já aderindo à mania do autor de explicar o óbvio) que lhe responde de maneira criativa. Pela resposta, fica clara a insinuação de que o cara é um demônio, ou coisa que o valha. Mas Coelho vai acrescentando, acrescentando detalhes até revelar que aquele cara era mesmo um demônio. Não contente, pergunta umas cinco vezes ao guia, que tinha afugentado o nosso demônio, até receber a confirmação, com todas as letras, de que aquele cara é um demônio, e que outros demônios seriam encontrados no caminho, um caminho repleto de demônios, se é que o leitor entende. Fiquei desolado. Aquele demônio era o personagem mais simpático e verossímil da estorinha. Até ali eu vinha me segurando para não desejar que um assaltante liqüidasse o Coelho, nem que seja para me livrar desse chato. Daí me surge um personagem capaz de algumas palavras que não soam absurdas nem infantis. E é logo ordenado demônio. Não me conformo. Levei o livro mais a sério que o recomendável. Resolvi seguir à risca os exercícios espirituais propostos, e comecei com aqueles contorcionismos e auto-sugestões. Ocorreu-me aprofundar a tentativa: seguindo o manual um tanto livremente, dei um paço à frente, arrisquei três pulinhos, enquanto exclamava: "tô feliz! tô feliz! tô feliz!" Data desse momento o início de minhas ideações suicidas. Ora larguei o livro, e sinto uma entusiasmante necessidade de espancar o Coelho.

Campo Grande, 20 de junho de 2005. 

III. R.K. Rowling tem uma interessante série de livros cujo único mérito é ter sido criticada por Bento 16. Lembro-me de uma chamada, em uma revista, que atribuía genialidade a Rowling. A vendagem desmedida, para além de qualquer razão, não é nova, nem inexplicável. Antes dela, outras pessoas venderam água com açúcar, em doses oceânicas, sem qualquer constrangimento alfandegário ou fiscal. Rowling explora a chateação do misticismo moderno. Mistura bruxos, fadas, duendes (nem sei se há duendes e fadas, já que nunca tive o privilégio de ler a doutora Rowling, mas seria ridículo uma historinha com bruxo mas sem fadas e duendes, né não, leitor?), numa linguagem tão decidida a aborrecer que espanta os leitores não terem expedido um justo fatwa contra ela. O que mais agrada é que ela chama todos os não bruxos de trouxas. É isso aí, seu trouxa.

Viagens, fotos e fatos

1. Salvador. De uma viagem recente a Salvador pouco ficou. O bastante para saber que é uma cidade grande e de escassos encantos. Suas igrejas exibem negro suor, e seus interiores ostentam fatigados dourados. A grande maioria estava devidamente fechada. O entorno é infestado de pedintes particularmente persuasivos. Eles “não seqüestram, apenas molestam”. O excesso de portugueses nos hotéis não é de grande valia. O elevador Lacerda passou por um banho de loja de gosto duvidoso, e a prefeitura... bem, a prefeitura. Tudo somado, tem-se a impressão de que o carnaval de Salvador tem mesmo de ser muito bão. 2. Porto Alegre. Muitos churrascos. Alguns museus. Casas de porta e janela. No centro, um ateliê de massas que excomungam todas as fomes, por mais sabidas. Dos passeios por suas ruas não detectei nenhuma felicidade importante, mas presumo que os olhos estavam excessivamente armados por espanholadas e outros êxtases ibéricos. O Guaíba é um lago, não um rio, me informaram. Que seja. Os navios seguirão fiéis a seu porto. 3. Gramado e Canela. São uma só cidade. Apenas resolveram ter dois museus de carros antigos. Em todo caso, oferecem “café colonial”, inconvincente desde o nome. Em Canela ergue-se suntuosa cachoeira, a verter de um um balcão luxuosamente guarnecido pela mata, que é amiga de uma cava. Da cadeirinha do teleférico, vi: livre, no imponderável abismo, a água se milparte e queda por ali, brincando de céu. Frondosa alegria. Com um pouco de boa vontade, descobrem-se novos usos para o gauchismo. 4. Do ato de fotografar. Afirmam alguns o suposto compromisso da fotografia com a verdade, invariável, num momento em que a pintura fugiu para o voluntarismo da fantasia e do abstrato. Seguro que a fotografia tem seus vieses. Também ela é interpretação do mundo, não seu fiel reflexo bidimensional; também pressupõe paixões, preconceitos e formas de representar. Com excluir tudo o que não escolheu para motivo, o fotógrafo subordina o mundo todo a uma de suas paisagens. Ao fotografar, procuro fatigar o menos possível o mundo, não incomodá-lo em demasia, extraindo só o estritamente necessário. É verdade que assestei, em mais de uma ocasião, minhas lentes contra o sol, para sabê-lo. Que importa a decepção dos resultados? Recomeço do zero a cada clique, daí meus erros, sempre inaugurais; daí não haver o menor risco de eu vir a surpreender o mundo transigindo em seus fundamentos. Por três vezes estive fotografando em Nova Iorque, Buenos Aires, Santiago, Jericoaquara, Barreirinhas, Fernando de Noronha, Abrolhos; por duas em Madri, Barcelona, Sydney, Auckland; e inúmeras vezes em Bonito e São Paulo. Que triste a sina de um homem condenado a repetir-se... O pôr-do-sol de Noronha é de poderosa eloquência, e gabarita a tarde. O de Jeri escandaliza todas as tristezas; abrasa e consuma o espírito. A maluquice do pôr-do-sol de Calafate e Natales, todas aquelas australidades, induz presságios e fome nos portos. Sou dos silêncios, e também proferi largos passos sobre cidades e desertos. Vou fotografar mais um pouquinho, e depois paro. Campo Grande, 7 de setembro de 2005.

terça-feira, 6 de setembro de 2005

Mais viagens

Dia desses, voltando de carro de Corumbá, passei pelo pantanal. Lagoas intermináveis vigiadas com fervor por jacarés, ciosos de suas responsabilidades. São pequenos, mas muito disciplinados, com representação abundante em cada lagoinha. Eles gostam daquelas ilhotas, bem no meio da lagoa, onde o sol é bem-vindo. Depois avistamos os pássaros. Alguns tuiuiús rasaram vôos paralelos à trajetória do veículo, sustentando majestades próprias de aves de mais de dois metros de envergadura. Avistei, ainda, íbis e colhereiras, algumas pintadas de rosa, e também aves outras que nem sei o nome. Há uma grata infestação de ipês na pantanal, grassando cores contra um céu sujo de queimadas. Os roxos e os amarelos predominam, às vezes numa linha de centenas de árvores, que enfestam colinas e corixos. O pantanal bem vale um sobrevôo, fotografias, memórias e... respeito.

Correspondência (uma publicação indiscreta)

De todas as minhas andanças, conservo as mensagens que os amigos me mandam, e algumas das que envio. Esta o amigo Júlio enviou em tempos. Eu estava em Belo Horizonte, e qual não foi o susto ao lê-la, num Shopping: “E aí, meu? De volta pra terrinha? Eu continuo estudando o roteiro e me divertindo com os novos aspectos culturais que aprendo. Imagine só, que uma das grandes diversões que um turista pode usufruir no Japão é, simplesmente, sem maiores delongas: Brincar de fudê japonês!! E você pode fazer isso até no Gozá!!! Mas creio que esses termos merecem um esclarecimento: FUDÊ é aquele pincel japonês, de pêlos de marta, usado para desenhar as letras do alfabeto Kanji, com tinta nanquim sobre folhas de papel de arroz. Como eu disse, deve ser divertido brincar disso. Principalmente se for sentado em cima de uma tradicional esteira de juncos japonesa, que lá é conhecida como Gozá. Tenho aprendido esses aspectos fundamentais naquele montinho de livros que mostrei para você. O legal é que sinto como se a viagem já tivesse começado! Me conte as novidades. A propósito, estou inscrito no Orkut, e lá tem uns grupos de discussão interessantes sobre viagens. Estou preparando a do Peru (26 de agosto a 9 de setembro), mas estou muito temeroso que a Varig quebre até lá. Nós e essas merdas de tickets smiles!!! Um grande abraço, Júlio César” Respondi, apreensivo: “Grande amigo Júlio: Receio não poder acompanhá-lo nessa história, preocupante, de fudê japonês. Sinceramente, nunca fiz isso em toda a minha vida, e não seria agora que iria começar (por mais que alguns experimentem e gostem, tendo em vista os óbvios apelos do Gozá). Você deveria saber que os japoneses, por natureza um povo ordeiro e respeitador, talvez não queiram se abrir a uma experiência tão extrema. Ao fazê-lo, você os estaria invadindo em seu íntimo, e isso não haveria de ser tranqüilo, tenho certeza. Numa sociedade tão fechada, não há espaço para essas liberdades todas. Em verdade, penso que raramente você conseguiria convencê-los a se deixar penetrar no que têm de mais valioso, o mais bem guardado segredo daquela cultura milenar: a arte de fudê japonês! E não adianta se deixar levar pelas idéias moderninhas, dessas que dizem que, numa viagem de férias, ficam suspensos os preconceitos e as barreiras para abordagens mais ousadas. Na hora h, intimidado pelo portento da empreitada, o pobre japonês acabaria se subtraindo ao fudê (e você ficaria na mão). Já esse negócio de pêlos de marta pode ser interessante. Conte mais detalhes, por pavor. Quanto a sua viagem ao Peru, tranquilito, hombre! A Varig não vai quebrar. Ela apenas está em recuperação judicial (parafraseando o Simão: rá, rá, rá). Eu também pensava que ela ia quebrar, mas fui à Europa e voltei, como se vê. Estou até planejando uma viagem à Venezuela, com minhas gostosas milhas Varig... Tenha fé, irmão, e (sobretudo) reze muito. E, por favor, não entre nessa de fudê japonês. Em nome do que há de mais sagrado, pare imediatamente com isso. Grande abraço, Gerson.” Dias depois ele respondeu, num tom inicialmente tranqüilizador: “Amigo Gérson, Seguirei seu conselho. Nada de fudê japonês! Devem existir outras formas mais dignas de Gozá! Interessante essa sua idéia de viagem à Venezuela. Sai de graça para conhecer Aruba, Bonaire e Curaçao a partir de lá. Recomendo.” Mas aí veio uma nota alarmante: “A boa notícia é que eu estou fazendo orações para uma divindade japonesa, para que nos brinde com boa sorte e uma jornada gloriosa na terra do sol nascente. A divindade se chama Bishamon, e é muito respeitado no Japão. Aí vão alguns detalhes sobre o grande Ser: Bishamon É o deus da dignidade e da riqueza. Por ser um dos quatro guardiões do budismo , usa trajes de guerra e segura uma lança. Embora chamado guardião do tesouro, não deve ser interpretado como de bem material. O tesouro no caso, são os ensinamentos do Buda. Bishamon é representado também segurando nas mãos um pagode em miniatura, que é o templo das orações. Ele é o promotor dos missionários das palavras de Buda e nesse sentido tem atribuição de guerreiro. Não deve ser confundido com o deus da guerra, Hachiman, este sim, o protetor dos samurais. SORTE: ter a figura de Bishamon em casa, afugenta ladrões e preserva os bens da famílias. (Fonte: www.desa.com.br - o site dos dekaisseguis) Um grande abraço, Arigatô Gosaimasu Júlio César” Escrevi de volta, acreditando que tudo estava perdido:
“Júlio: Por mais respeitada que seja essa entidade japonesa, detém o passo, considera um momento. Lembrai dos mais elevados princípios cristãos que sempre o nortearam e formaram-te o caráter.
Pra que pôr tudo a perder agora, justamente na antevéspera da viagem àquele pais asiático? Essas entidades desconhecidas, sabe-se lá com que orientações... Melhor evitar.” Como o assunto foi esquecido, o Júlio deve ter conseguido superar essa queda, momentânea e sem conseqüências (e mais apropriada para adolescentes), esse fascínio por Bishamon...

terça-feira, 2 de agosto de 2005

Portugal, uma viagem

1. Restaurante no B’lém. "Deseja carapau, a rapariga?". A espanhola ferrou os olhos no garçom, a exigir explicações. "Raios! Nem sabe o que é um carapauzinho..." No meu canto remoía minha fome. Cogitei até mesmo um prego, mas reconsiderei em favor de um lombo de ‘bacaláo’, bem mais digestivo. 2. Surpreendem-me certas coisas em Portugal. Os nomes, por exemplo. No Museu da Água, no B´lém, uma localidade chamava-se, na Idade Média, Paugordo. Isso mesmo: Paugordo. Outro topônimo que trouxe certa apreensão, no caminho para Cascais, é Almoçageme, lugarejo perto do Cabo Roca. Deus me livre de lugares assim. 3. Após esperar quase uma hora para ser notado num restaurante no centro de Lisboa, o garçom foi logo tascando: "o gajo parece estar para uma bifana..." "Não nunc..." (antes que eu pudesse responder, outro garçom, de caso pensado, decretou): "o que ele gosta mesmo é de uma chanfana, ora se não." Apesar de sua irreverência, acabei por convencê-los de algo mais convencional, e fui de bacalhau no carvão. Cheguei de ônibus a Lagos, no Algarve. Viagem suave; merecidas horas de descanso. Lá pelas duas da tarde, a fome abria um feroz hiato entre os mundos interno e externo. Com poucas opções de restaurante àquela hora, entrei no que me pareceu o mais bacana. Infelizmente, as opções eram suspicazes: lulas cheias de olhão, choquinhos com tinta, rojões, ensopado de borrego ou calderada de enguias. Difícil. A opção das batatas a murro também me pareceu temerária e, em desespero, considerei as tripas à moda do porto, última instância. As lulas subiram a parecer, e foram rejeitadas, por causa do olhão (que diabos eu faria com o olhão?); os choquinhos até poderiam servir, não fora a tinta. Que fazer? Arriscar com rojões? Tolerar as patifarias das batatas a murro? A história terminou com caldo verde à minhota, de entrada, e ameijoas à Bulhão Pato. Aí veio a crise da sobremesa. Trouxas das caldas? Lampreia de ovos? Pastéis de Tentugal? E quanto às Rosetas, Viriatos, Ouriços e Ninhos de Viseu? Hum, deixe-me ver. Aletria com ovos? Cavacas das caldas, tigeladas? contentar-me-ia, porventura, com brisas do lis de leira? Fiquei com as brisas. 4. Batalha Achando muito árida a basílica de Batalha os pássaros resolveram adotá-la, e em sua nave estabeleceram alegres rotas aéreas: voam entre santos e anjos, suavizando o duro ato de ser pedra.

terça-feira, 5 de julho de 2005

Espanha, uma viagem

1. Chegado de inopino à Espanha, adverti que seria razoável comprar um guia, um que fosse. Encontrei, na promoção “tudo por um 1 Euro” do Corte Inglés, um simpático livrinho intitulado “dormindo como um rei (na rodoviária)”. 2. Tapas e queijos
Todos procuram um bar, chegado o fim da tarde. Ele se aproxima depois das 20 horas, numa Europa primaveril. Após acondicionar a máquina fotográfica, a segunda máquina fotográfica, a mochila cheia de acessórios fotográficos, os óculos os mapas o lenço o chapéu e o corpo numa cadeira, uma pergunta a queima-roupa: “quieres tapas?” “Quiê quié isso”, volvi. O camarero, sem mais aquela, distribuiu tapas a todos ao alcance de suas mãos ligeiras. Na tevê se enfrentavam Málaga e Sevilha, que acompanhei impassível, enquanto o chope era vertido. À saída uma placa explicava toda a filosofia: “aqui tapeamos, y bien”. Repercuti com a espanhola Rocio, com quem converseu na Cartuja (uma catedral) o acontecido, instando-a a jamais pedir tapas, quando no Brasil. 3. Perdi-me nas ruas do bairro judeu de Santa Cruz, que começa ali mesmo, na Basílica de Sevilha. Fui até a casa em que morou um filantropo chamado Pôncio Pilatos, cônsul romano no início da era cristã, e depois até a mais antiga casa de tapas da cidade (desde 1670, conforme a garbosa placa à entrada), onde tapeei a fome com uma competente porção de bacalhau. Se outro dia fiz um arrastão pelos museus da cidade, hoje mergulhei de cabeça nessa Sevilla, tão necessária. De manhã, a catedral Macarena, a muralha ao lado e o Hospital das Sete Chagas, sede do parlamento Andaluz. Depois, as colunas romanas, num lugar mal arrumado, e volto à basílica, para fotos. No almoço, paella com mariscos (deliciosa); depois, a Plaza de Toros, interessante, e a siesta, lá pelas 15 horas. A partir daí internei-me no bairro de Santa Cruz, tendo antes o cuidado de passar no Corte Inglés. Para os minuciosos, presto contas: passe de ônibus até a Macarena: 1 E; entrada na Mararena: de graça; Plaza de Toros: 4 E; paella no centro: 9 E; um livro intitulado El Nacimiento del Mundo Moderno: 1,5 E; tapa de bacalhau (absolutamente deliciosa), omelete com jamon e suco: 5,5 E. Depois, frutas e água em Santa Cruz: 3,20. Entrada no Hospital da Caridade: 4 E. Caminhar por becos labirínticos e ruas insensatas, de 1 metro de largura: de graça. Total da aventura: 29,90 E. 3. Se a sureña El Calafate tem La Vaca Atada, restaurante dos mais aconchegantes, a cosmopolita Barcelona tem La Vaca Paca. Em comum uma sugestão velada de pampas e vaquinhas nutritivas. 4. No alto da serra, na Igreja de Montserrat, a 2 horas de Barcelona, entrei na fila que me deparou logo após um pátio vigiado por aparatosas janelas. Não sabia para que servia, nem o tempo de espera, mas parecia importante, bem ali na entrada do templo. Entrei. Todos visivelmente ansiosos, e um diria que se avizinhava um êxtase. Desafortunadamente, aquela fila era a dos que necessitam ser açoitados duas vezes ao dia. Aconteça o que acontecer, mantenha-se longe de filas, a não ser em repartições que gozem de boa reputação. As montanhas Montserrat lembram, nos ângulos mais favoráveis, a rocha Uluru, na Austrália central. Em minha ignorância geológica cheguei a ver o mesmo aglomerado sedimentar da meseta australiana. Montserrat, é claro, está acima dessa ilusão. 5. Gaudi: Há algo na Sagrada Família que não pertence ao realizável, ao humano. Tentei saber de onde provém seu poder de entesourar em nós o belo. Parece que é algo alheio à fadiga das gruas e do concreto. A evidência de Gaudi na orgânica matriz, árvore total não isenta de sandices. Sua simples postulação levanta vastos estamentos de fé e dúvida, bem acima de nossos precários rascunhos de mundo. O sagrado, o sublime, num assombroso inventário de delírios. 6. Madrid: tarde redonda e branca, a desejar poemas. Drummond percebeu o impasse, bem antes: “A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.” Conclusão. Ganhei o mundo, a alma acumulou largas milhas, e já agora se expande em seus labirintos. 25.06.2005

domingo, 12 de junho de 2005

Madrid

Olá, gente! (vocês ainda estão aí, não é mesmo?) Bem, estou terminando a viagem (antecipei o regresso, por motivo de reunião de trabalho). Madri, já conhecia. Dos três grandes museus, já conhecia o Prado (que tornei a visitar, hoje) e o Reina Sofia (que abriga o quadro Guernica, de Picasso). Conheci, assim, o Thyssen, que tem muitas obras bonitas, dos mudernos. Voltei ao parque do Retiro, e à Gran Via, com todos os turistas de sempre. O templo de Debod, trasladado inteiro do Egito, assim como o Dendur, do Metropolitan de NY, é interessante e pequeno. Fotografei-o ao amanhecer. A novidade foi conhecer Ávila e Segóvia. A primeira é uma cidadela inscrita em muralhas de muitos quilômetros, numa interessante tapeçaria medieval. Elas enlaçam a cidade, deixando-nos com a visão autêntica de eras repletas de guerras e perigos. Segóvia é de várias felicidades. Uma delas é o Alcázar (palácio construído pelos mouros, depois tomados pelos cristãos). Estacionado no alto de um penhasco, vê-se campos e igrejas e palácios (o que mais?). A catedral tem uma torre particularmente importante. Vista a certa distância, é um impressionante maciço ocre, brandamente visitado pelo sol primaveril. Tentei fotografá-la, sem qualquer resultado digno de menção. O Aqueduto, romano, está bem no centro, e constitui um poderoso testemunho dessa civilização. Tem varios quilômetros de extensão, e uma altura inimaginável. Magnifico. Fotografei-o, tambem com resultados duvidosos. Ademais, há vários prédios antigos, medievais, que valem o esforço da viagem. A cidade é impressionante (já o disse), amplamente favorável a uma visita sem pressa. Agora, uma noite de sono, operação retorno e... São Paulo. Madrid, 12 de junho de 2005.

segunda-feira, 6 de junho de 2005

Barcelona

Barcelona! Fiz um city tour de ônibus (o que não é do meu estilo), para conhecer os pontos mais interessantes. Amanhã começo a explorar de verdade esta cidade catalã. O que mais impressionou hoje foi a Pedrera, prédio de apartamentos desenhado por Gaudi. É um conjunto maravilhoso, com esculturas enigmáticas na cobertura. Dragões circunspectos, não lhes descobri qualquer aspiração circense. Eles talvez se soltem mais, quando não há turistas por perto. Ontem, impressionou o estudo de Picasso sobre a tela As Meninas, de Velázquez. Dois quadros sobre a infanta me emocionaram (sem brincadeira). No mais o museu é até modesto (já vi a Guernica em Madrid. Talvez seja por isso). Agora, descanso. Amanhã recomeço. Abraços.