domingo, 12 de março de 2006

O tempo

Adormecido, distrai-me um sonho qualquer, e de repente percebo que é um sonho. Costumo pensar, então: Isto é um sonho, pura diversão de minha vontade, e, já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre.
Oh! incompetência! Nunca meus sonhos sabem engendrar a almejada fera. O tigre aparece, sim, mas dissecado ou fraco, ou com impuras variações de forma, ou de um tamanho inadmissível, ou muito fugaz, ou tirante a cão ou pássaro.
Jorge Luis Borges
Eu dormia o sábado, a tarde, guiado por um árduo sonho. Não é raro que eu sonhe. Nessa tarde eles pareciam aflorar desde distâncias esquecidas. Assegura-se que todos sonhamos, em todos os sonos, desde que durmamos o bastante. Ignoro se sonho todas as noites. Mesmo os sonhos de que me lembro, não me lembro tanto assim, e eles parecem forçados, como se não tivessem sido tudo aquilo. É fato que, quanto mais exijo de meus sonhos, mais eles entregam, constrangidos, roteiros ligeiros, o que induz ao cálculo de que sonhos não são muito rigorosos na administração de seus fatos, de suas verdades. Um dos primeiros livros com pretensões científicas da minha modesta experiência literária foi A Interpretação dos Sonhos. Trata-se de um constructo místico, no mesmo nível das cabalas judaicas, inservível para usos científicos. É um primor de prosa, se comparada aos textos indecifráveis do ex-psicanalista Carl Gustav Jung. Decalques em grego, citações calculadamente confusas, colagens de hieróglifos: nenhuma pirataria era grande o bastante para esse suíço. Com exceção honrosa de Roger Penrose, Noam Chomsky, Jacques Lacan, Julia Kristeva, Luce Irigaray, Bruno Latour, Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Felix Guatari, Hegel, Martin Heidegger e um ou outro James Joyce, todos os livros que eu já li ganham com folga do pérfido Jung. Freud, em sua charlatanice, força a amizade ao impor-nos uma inverossímil realização de desejos aos sonhos, quando se sabe que, em sua antiga anarquia, eles seriam incapazes de realizar tarefas. Não importa. A barafunda de imagens e idéias trânsfugas que gostam dos sonhos não é auspiciosa para a realização de trabalhos. Nem consente qualquer certeza. Freud enxergava neuroses inofensivas nos sonhos; outros enxergam pequenas mortes, igualmente inofensivas. Uma escola recorrente de idéias confere propriedades terapêuticas aos sonhos. Por último, chegamos à tese da reorganização de redes neurais, uma maneira tortuosa de ressuscitar a idéia do recondicionamento da mente durante os sonhos. Classicamente, eles serviam de entreposto ao comércio de revelações divinas. Concertando caos e volúpia, os sonhos se prestam a muitas assertivas, igualmente peremptórias, igualmente desnecessárias. Ia dizendo que sonhei. Eu via meu guarda-roupa marfim sumindo atrás da verde parede que recusou quadros. Com seu poder de caos, o sonho logo supôs uma rica realidade ao fim do pequeno corredor que dá para a porta. Entrei a duvidar, sonho que era, do que me aguardava depois do corredor. Deparei com um espantoso deslocamento de tempo e lugar. Em vez de encontrar meu corredor azul, com um tapete geométrico a abraçar os cantos e indicar o progresso dos passos, vi-me numa sala ambiciosamente modesta, de uma casa de madeira escurecida pelo desejo do sol e da chuva, situada em Nova Andradina. Não me lembro dessa casa em particular, e parece que ela compunha-se de várias casas, a principal delas situada a umas oito quadras da Avenida A. J. Moura Andrade, à direita de quem chega à cidade vindo da Casa Verde. A sala, inerte, não deixava adivinhar quem morava ali, mas sugeria que, de algum modo, eu morava naquele deserto, guarnecido por um sofá em três peças, nenhuma delas adequada à féria. Uma mesa de castigada fórmica suportava uma toalha de cor incerta, e uma gasta bíblia estava aberta à cabeceira, com um marcador de páginas reclamando o céu. De modo algum a sala me interessava. Eu deveria estar no corredor do meu familiar apartamento, não nesse desvão inoportuno do tempo. Fugi para a rua, o que só aumentou meu espanto. Um sol castigava a madeira das casas, o chão da rua (a essa hora abandonada), compondo um quadro de árido, fustigante desdém. A rua em terra desnuda, estiolada pela excessiva luz do sol das duas da tarde, alinhava raros, toscos edifícios oprimidos pelo abandono humano. Ninguém por perto. Ao longe, o que parecia uma carroça quase alcançando um grupo de crianças. O ermo medrava em casas vazias, fechadas, de algum modo secretas. Perturbado com ter caído na cidade de minha adolescência, por volta de 1982, decidi que não toleraria aquele golpe do calendário. Depois reconheci a casa como sendo uma daquelas em que se celebravam cultos num dos dias da semana, das dezenove às vinte e uma horas. Compareci a muitas dessas cultuações místicas, sem outro proveito que a caminhada no início de noite. Voltei para a casa, entrei na lesta sala e tentei refúgio no quarto. Lamentavelmente, o quarto era apenas a esperada continuação de uma casa achada em erro: uma cama de madeira, alguns móveis que não merecem um relato. Meu confortável quarto, de enorme cama, paredes verdes e cortinas suaves se fora, fechara-se após meus precipitados passos. Não me ocorrera que a saída do quarto poderia ser fatal, num mundo de volátil calendário. Lamentei o destino, a meu ver injusto. Não sei como, mas concebi que, se eu dormisse ali, talvez acordasse em meu quarto, já restituído a suas formas naturais. Ocorreu-me, porém, que eu talvez não conseguisse dormir, ou que, em acordando, viesse a dar com um mundo ainda mais alheio, quem sabe desabridamente assassino, como o do final da década de 1930 e de toda a década seguinte. Um pouco de probabilidade me diria que as chances de acordar precisamente no meu quarto, no dia 15 de fevereiro de 2003, eram remotas. Poderia ser um dia qualquer de 2063, quando meu mundo estaria irremediavelmente extinto, ou uma noite de 1843, quando seu advento era pouco menos que razoável. Não me alegravam as fantasias de mundos alternativos, contingentes à ação descuidada de viajores intertemporais. Tratava-se da realidade, uma atroz realidade, de estar sofrendo um deslocamento arbitrário do tempo, essa confortável, habitável dimensão envolvente, com sua seta apontando sempre para a frente. A tarde desmantelada pela incúria do sol, pela insensata deriva do tempo, me era por demais gravosa para permitir proveito do insólito transporte. Tinha um encontro marcado com minha amiga naquela noite. Esses encontros eram preciosos. Como passaria sem? Se eu fosse vertido para o Brasil das grandes nações indígenas, anterior aos bandeirantes, e tivesse que aprender a manejar o cerrado, colher mel, caçar onças? Se eu tivesse de passar sem meus livros? Contra os prognósticos pessimistas, e após horas de espera atormentada, conciliei o sono, e alcancei sonhar. Após os argumentos de praxe, passou o sonho ao tema esperado, da viagem entre tempos. Percebi que o quarto voltava, verde, silente, tranqüilo. Já era possível ver a madeira amarela de fronte a mim. O quarto parecia recuperado, mas durante muito tempo não reuni coragem para transpor o limiar do corredor. Campo Grande, em 2003

quarta-feira, 1 de março de 2006

Templos e o fogo

Jorge Luis Borges nos conta de múltiplos templos de ruínas circulares, em que medra um personagem que era muitos, porém sonhado. Entre tantos elementos, somente o fogo era seu amigo, e o sabia irreal. “Na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul”. Esse homem sabia “que sua obrigação imediata era o sonho.” Sonhou uma nuvem de alunos taciturnos, que esgotavam os degraus de um anfiteatro circular: “os rostos dos últimos pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos”. Insatisfeito com aceitarem passivamente sua doutrina, o mago diplomou para sempre esse vasto colégio, em prol de um único aluno, mas também este ruiu, como ruem os sonhos excessivamente rebuscados. Industriado pelo Fogo, que lhe ministrou magias, ele finalmente concebeu o filho. Sonhado em todas suas minúcias e instruído nos ritos, foi enviado rio abaixo, para oficiar em outro templo. Tempos depois, já tendo ouvido falar das artes do filho, nas ruínas de um templo circular rio abaixo, o mago se viu cingido pelas chamas. “Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.”

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Um sumário

1. A miséria. Numa mesquinha manhã da periferia de Déli, mendigos, numa rotatória. Velhos e crianças; homens e mulheres. Um velho saía de uma furna improvisada no canteiro. Em sua expressão os piores infernos se congratulavam e zombavam de nossa esperança e boa vontade. Ele parecia ter esgotado todo o estoque de dor do mundo, e escovava os poucos dentes. Não pude com aquele velho. Todos que naquele momento por ali passavam se transformavam em Mengeles, pouco importa se, olimpicamente, não o soubessem. Os amigos do velho interagiam, ocupados com o café-da-manhã, inexistente ou atroz. Pensei em registrar esse mal-estar fundamental, antes que ele se transforme em mero ruído vestigial de uma viagem. 2. De minha cama no hotel em Phnom Penh via o Mekong. Sua vasta rede de canais medram na selva e presidem o Camboja, esse estado de coisas que nos esforça a alma. Na subida de barco de um dos rios que encontram o Mekong em frente ao hotel, uma criancinha explorava a selva com seu poderoso navio que mais bem examinado era uma modesta bacia. Sob luz amiga do dia inicial, o Mekong mostra toda a fortuna da Ásia. Um madrugador balé de canoas, com pescadores e comerciantes, voluteia e aviva o rio. 3. O povo japonês. À exceção do chinês, que trabalha em massa desde as 7 da manhã, não há como o japonês. Mesmo na mais modesta lojinha os funcionários correm para atendê-lo. Correm normalmente, sem ninguém que a isso os obrigue; sem hora de fechamento nem visita do patrão. O Japão impressiona fortemente. Nas ruas a ordem, o respeito, o poderio econômico. Em todos os móveis urbanos, circunspecção e mais respeito. Não se consegue detectar uma única mancha, uma única pichação em nenhum viaduto, de resto polidos como se decorassem uma sala de estar. Mas nem tudo são delícias. Às vezes, em algumas lojas, você é surpreendido com insistentes gritos dos vendedores. O que são esses gritos, a quem se dirigem? Não ficou claro. Dada a repetição, histérica, se parecem com gritos de pânico num bando de macacos imaturos. Conhecida a estridência, dir-se-ia que é iminente um maciço ataque de predadores. Não perguntei o motivo dos gritos, se pavor ou excentricidade, numa cultura quanto ao mais avançada. 4. A muralha chinesa. Após uma hora de carro, do aeroporto até o centro de Beijing, uma chinesa que podia não ter mais que 1,80 m, mas tinha o porte, a altivez e a impenetrabilidade de uma torre dessa muralha que corta a vasta Ásia e instrui astronautas. Com seu longo manto, gorro e botas vermelhas, dir-se-ia que a formidável chinesa nem tanto recebia os hóspedes, e sim que os consentia, com uma saudação quase marcial. De pé, impassível apesar do frio glacial, hirta como um símbolo, ela era mais eficaz que todo um batalhão do exército chinês. Era a própria muralha, de rosto impensavelmente marcial e feminino. Ao cabo de alguns dias, reuni coragem para dirigir-lhe a palavra. "Ráo", foi o que pensei ter ouvido em resposta (a expressão é uma saudação, vim a saber depois. Inteira, soa algo como Oh ráo). Havia outras dessas muralhas, todas em impecável longo vermelho. Embora com jurisdição limitada à portaria do Novotel de Beijing, a ira de uma delas bastaria para te arruinar por toda a China, leitor. 5. Corumbá. Vim de inopino, aproveitando a carona do amigo Gilberto. É tempo de carnaval, mas terão de perdoar eu não ser folião. Na primeira parada do improvisado safári fotográfico fomos recebidos por uma importante delegação de muriçocas, que prontamente nos convidou para um banquete. O repelente mostrou por que foi escolhido pelo exército francês, e acabei alijado do festim. Os bichos estavam por toda parte e colaboravam com o fotógrafo, desastrado. Um gavião posou pacientemente por uns 15 minutos até eu achar a regulagem da máquina. Um garboso veado pantaneiro se submeteu a uma demorada troca de lentes até os cliques que lhe eram devidos. Um casal de tuiuiús fez longa dança conjugal enquanto o vôo de outros pássaros, previamente combinado, emoldurava a paisagem. Uma simpática porca ficou feliz ao ser fotografada, com todas as suas opulentas arrobas. Muitos biguás, e toda a parentada, foram sondados, numa tentativa de registrar essa prodigiosa farra de aves que é o pantanal. Desde o galho, um deles se jogou na água, para fugir da câmera ou conversar com algum peixe, não sei. Os jacarés pareciam magoados e não compareceram. Os poucos que vi eram filhotes ou adolescentes assustados e declinavam os cliques. Com tentar fotografá-las, frustrei uma reunião de anhumas no alagado oposto à cidade. Algumas se deixaram registrar, enquanto outras, avessas a publicidades, se reuniram às amigas na Bolívia. Ninhais, inacreditáveis ipês de cores incendiárias; lagoas na vazante, forradas de peixes, jacarés e aves: sinto-me na obrigação de estudar melhor os ciclos de seca e cheia, vida e morte nesse vasto santuário. Corumbá, 27 de fevereiro de 2006.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Os jornais

Em Free thought and official propaganda, Bertrand Russel propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. Das pessoas que conheço, pouquíssimas sequer a soletram. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos; pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas; confundem a verdade com o corpo doze; negam-se a entender que a afirmação: ‘Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta’ é mero eufemismo para admitir a perda de B. Pior ainda: exercem uma sorte de magia, pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo... Russel propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas. Por exemplo, sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur, ostensivamente triunfais. Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses, reescrever essa história do ponto de vista francês. Ponho-me de acordo com Borges, autor desse comentário. Condescendente e sonolento, fatigo os jornais. Não careço de fatos: contenta-me sua imagem invertida ou, quem sabe, torturados fragmentos; verdades suspicazes, constructos marotos, sobre os quais brincar de engenharia reversa. Talvez eu já queira uma mentira risonha, mas os jornais desta província observam mentiras burocráticas e enfadonhas, em ciclos intermináveis. Lembro-me de que noticiam, a intervalos conhecidos, certos investimentos, certas escolas ou hospícios ou anfiteatros. São notícias tão auspiciosas quanto o advento de uma sorveteria, uma barbearia ou, quem sabe, uma fábrica de trins. Nesta república, onde o tempo é da mais imprudente circulação, os jornais ventilam algo, parece que uma historinha de corrupção. Falam de um presidente, seu vice, um presidente de Câmara, muita gente, enfim. Já vimos isso tudo, antes. Onde será que foi? Ora se não foi aqui mesmo! Os grandes governadores, vestidos de púrpura com fasces e insígnia, são governados por seus criados, pelos amuos de suas mulheres e filhos; ou, em países constitucionais, pelos parágrafos dos seus jornalistas hábeis. Carlyle, que incensava monarquias, sem explicar-nos onde, no que elas funcionariam, apresenta-nos essa nota em sua História da Revolução Francesa. Folguei por dois meses. O País segue o mesmo. Os jornais não se deram o trabalho de estampar qualquer novidade, talvez por conservadorismo. Tanta falta de imaginação me aborrece. Campo Grande, 16 de fevereiro de 2006.

A volta

Meu apartamento, sede de toda paz, me acolhe sem censuras. 50 dias é menos que os parlamentares se concedem de férias por ano, mas já é um respeitável hiato no esquematismo quotidiano. Acomodo as lembranças de viagem, os presentes que me dei. Algumas estátuas chinesas, outros vasos japoneses abriram caminho na sala (essa sala, tão confortável quanto pouco habitada) por sobre congêneres de outros países, de viagens já esquecidas. Na minha oficina, o novo aparelho de som (japonês) sobre outro aparelho de som, num palimpsesto imprevisto. A competição entre os dois fornece a medida de minha necessidade dessas harmônicas. As fotos vão para o computador. Adiciono meio terabytes à memória desse servidor, na esperança de que se lembre de todas as fotos que tentei tirar, e cujos motivos fugiram.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Toronto

Nesta cidade acolhedora termino a aventura. Foram oito paises, numa sucessão vertiginosa de idiomas, religiões, culinárias e gentes. A India, já viram, não me fez bem. Resta defesa para pessoas fracas, como eu. A miséria brasileira entristece, incomoda. Já a India é o permanente suicídio da alegria. O Canada é moderno, rural, elegante e discreto. Sua vastidão gelada ignora fronteiras e vai até onde se exaure o Norte. A matriz do povo recebeu generosas contribuições de estrangeiros, sem prejuízo da harmonia. Fui às Niagara Falls, sob tempestade. Ficou clara a invasão de prédios e outras urbanidades indevidas a essa reunião das águas. Quem conhece Foz do Iguaçu sabe da necessidade de preservar esses jorros de alegria da natureza. Em temperaturas mais amenas, creio que me adaptaria muito bem a esse gigante amistoso e fácil. Toronto, 7 de fevereiro de 2006.

Dever Cívico

É sempre um prazer ler o blog do Josias de Souza. Abaixo, ele faz uma desabafo digno da nossa situação, pouco civica. Convido o leitor para um breve exercício de reflexão: Houve um tempo em que poucas experiências se comparavam ao prazer de entrar na cabine eleitoral. Lembra? Sentir, diante da cédula, aquela sensação gostosa. Os quadradinhos limpos, vazios, intocados, à espera do seu rabisco. Era um instante simbólico, o pedaço de papel esperando por uma atitude. E você, convencido da sua relevância, assumia compromissos consigo mesmo: dessa vez vou caprichar. Serei um eleitor exemplar. A realidade está aí mesmo, diante dos meus olhos, esperando que eu a modifique. A ditadura militar tinha ficado para trás. O país parecia ter voltado às suas mãos. Lembra? De volta à cabine eleitoral, você hesitava antes de marcar o “X” no quadradinho. Ficava indeciso: fulano ou beltrano? Partido “A” ou legenda “B”? E, finalmente, deitava sobre o papel a sua decisão. Como se fosse um testamento para as gerações futuras. Seu zelo podia consumir minutos intermináveis. O bastante para que o pessoal da fila começasse a fazer cara feia. Mas você queria cumprir com o seu dever cívico. E deixava a seção eleitoral com aquele semblante virtuoso. Sentia-se um rei. O voto era seu cetro metafórico. A urna eletrônica diminuiu o romantismo. Mas não suprimiu a solenidade. Você manteve a fé renitente na democracia. Continuou acreditando que estava participando de um ritual superior. Fechava os olhos para as evidências em contrário. Hoje, você já não se reconhece naquele eleitor piegas de antigamente. Lembra da frustração dos dois Fernandos. Vê com tristeza a metamorfose do Lula e do PT. E começa a refletir sobre o hediondo paradoxo em que se transformaram as eleições. O voto ficou cada vez mais corriqueiro e fácil. Ao mesmo tempo, a opção do eleitor nunca pareceu tão irrelevante diante do que fazem, no governo, os seus escolhidos. Onde você enxerga vocação política e carisma não costuma haver senão pretensão e picaretagem. Você começa a entender melhor o espírito da democracia. Descobriu que o seu papel na história não é o de protagonista, mas o de otário. Tenta resistir à desesperança. Mas não consegue. Já não vai à urna por gosto. Comparece porque a lei o obriga. Se pudesse, iria à praia ou ao shopping. Você agora já sabe: para que a hipocrisia continue funcionando, alguém precisa exercer o seu papel de otário. Você diz a si mesmo que não é um otário qualquer. Considera-se um otário consciente. Raciocina com os seus botões: os otários são necessários. Dão suporte à democracia. A hipocrisia passou a ser uma forma de patriotismo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

A Verdadeira India

Tendo percorrido muitos países, quero voltar a falar um pouco sobre a India. 1. Antes de ir, suspeitava que a India tinha sérios problemas de superpopulação, infraestrutura etc. Mas nada me preparou para o que vi. Em todo lugar, em cada rua, em qualquer direção que olhasse, milhares de mendigos, maltrapilhos, correndo de um lado para o outro, ou simplesmente parados, provendo o nada. Casas, lojas, escritórios e oficinas formam uma continuidade apavorante de escombros, carcomidos pela indiferença. Não há um centro da cidade e uma periferia: é tudo cinza e corroído, desgastado, de algum modo corrompido. Da mesma maneira os bancos, repartições públicas, escolas. Nada se salva na India real, exceto, talvez, as ruínas de civilizações pretéritas, com templos e monumentos que tentam desmentir a realidade com uma suntuosidade ilícita. Nada é moderno, nem clássico, nem ousado nem grandioso; nem mesmo kitsch: tudo é lixo, escombro e degredo, numa escalada insuportável, que cassa a alegria. 2. O homem. Nada é mais catastrófico, na India, que seu elemento humano. Não estamos falando de pobreza, apenas. Trata-se de um oceano de pessoas uniformemente baixas, e magras. Uma magreza de fome e ausência de proteínas. Pedem esmolas, cobram gorjetas, vendem porcarias, negam o contrato que acabaram de firmar: nenhuma indignidade lhes é estranha. Andam dependuradas em ônibus, ou dentro de carros, riquixás, de bicicleta ou à pé: transformam cada rua num pesadelo, que suplanta e destrói a India das paisagens e monumentos. No fog de Déli, ou qualquer outra cidade, milhões correm fantasmagoricamente atrás de alguma esmola, uma propina. Descrevem um lúgubre espetáculo de fome e miséria, sem apelo. Aos poucos, vê-se que as pessoas formam uma continuidade com as ruínas e escombros; unem-se num lastimável rio de nojo e desespero. "Esta miséria", pensei, "é tão horrível que sua mera existência e perduração, embora no seio do subcontinente indiano, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz". A paráfrase remete a Borges. Peço perdão por mais esta apropriação indébita. Gerson Noronha Mota

Chocolates

Isso de chocolate japonês, pode ser perigoso. Ontem, por exemplo, eu estava degustando um chocolate Meiji (nada a ver com a Restauração Meiji, que sempre associo, sem qualquer embasamento histórico, a uma revolta dos samurais) quando a restauração do meu dente não agüentou e ruiu. O da frente. Embargado o sorriso, a proibição de piadinhas, blagues e outras jocosidades não produziu senão sua feroz multiplicação. E no karaokê que visitamos à noite, o japonês da portaria foi logo cobrando, enquanto batia as mãozinhas: "cadê o sorrizão do papai?"
Felizmente, uma relutante ida ao dentista me trouxe a serenidade que Bilac não teve na velhice.
A barra de Meiji, pela metade, ficou de presente para o Júlio, que presenteou a zeladora do hotel, uma senhora muito distinta e afortunadamente banguela.
Parei com chocolates, por ora.
Tóquio, 2 de fevereiro de 2006.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Tóquio

São os insuspeitados canais, a baía, as ruas. Tóquio é delicada, triunfante, educada. Preciso de Tóquio, para minha viagem. Para as memórias e passeios e compras. Ainda não fui ao Palácio Imperial. Não conheço qualquer de seus jardins e já os sei belos e aprazíveis. Tóquio fica ali, na esquina do coração, pulsando. É reunião pacífica de milhões. Um caos de organização obstinada. Nenhum lixo na rua, nenhum chiclete, nenhum barulho indevido, nenhum mendigo ou criança abandonada. Se chove, quem não tem guarda-chuva logo arranja um e, feliz, vai visitar essa arquitetura que carece de adjetivos. Me faz bem, Tóquio. Faz sonhar com um país que, possível, não está disponível para os brasileiros (eis o que é triste). Gerson Noronha Mota

domingo, 29 de janeiro de 2006

Beijing

Palácio de Verão. As pessoas caminhavam sobre as águas congeladas de seu grande lago, enquanto, ao fundo, o sol fazia o possível para sustentar a definhante autoridade do dia. Errei por esse palácio, de sólidos riachos e níveas pedras. Talvez ele seja mais amigo no verão. Não acredito que mais belo. Pequim (Beijing) é cidade de muitos impérios. Está bastante claro que seus construtores ignoravam restrições e estafas. Pareciam devotos da harmonia. Modernamente brotam torres de aço e concreto, sem qualquer menção à grandiosidade da arquitetura imperial. Hão de encontrar seu lugar, numa cidade já povoada de grandiosidades e delicadezas. 29.01.2006.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

China: primeiras impressões

A China é desmedida. Beijing explode em cada esquina. Tudo é superlativo nesse país-continente. Suas Muralhas são um desafio para câmeras e músculos. Corcovas de um dragão que, antigo, dorme em cimos fortificados. A Cidade Proibida, de tão vasta, não se deixa conhecer senão em várias tentativas. Hoje a visitei pela segunda vez, sem a mesma luz favorável da primeira. Presenciei, no zoológico, todas as preguiças de um panda gigante. Por toda a tarde ele bocejava por nós dois. A China cresce. Depressa e demais. Um brasil fica por aí, meio que não sei. Os chineses trabalham. Inventam o futuro que melhor lhes quer.

domingo, 22 de janeiro de 2006

Malásia

Kuala Lumpur é grande, movimentada, com autopistas e trânsito que lembram países avançados. A cidade é dominada pelas Petronas Twin Towers, dois espigões de 452 metros de altura, secundadas por alguns prédios e um alentado parque urbano. À noite, seu brilho faz das torres um improvável desenho animado, de contornos vivíssimos, surreais. Chega-se a pensar que instalaram neon nos andares mais altos, e um visitante desatento imaginaria que chegou a Gothan City. Já não são as mais altas do mundo (essa honra cabe à Taipei 101, com mais de 500 metros), mas são as mais impressionante que já avistei. Os malaios são muitos, como previsto, e não se consegue negar a presença dos chineses. Estou em Chinatown, numa rua que compreende todas as marcas e muitas comidas orientais. Tudo na rua, tudo perfeito para um passeio. O tempo é de uma quentura sem preguiça.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

A cerimônia de cremação

Após algum tempo vendo os cadáveres se congratularem na voragem das chamas, ocorreu-me reparar no entorno da morte. Teriam todos eles merecido sua morte? Não haveria, entre tantos que ardiam, um fraudador, alguém que solertemente se introduzira entre os mortos, só para merecer os favores do fogo, que sabia ilícitos? Jorge Luis Borges nos conta de múltiplos templos de ruínas circulares, em que medra um personagem que era muitos, porém sonhados. Entre tantos elementos, somente o fogo era seu amigo, e o sabia irreal. Na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul. Esse homem sabia que sua obrigação imediata era o sonho. Sonhou uma nuvem de alunos taciturnos, que esgotavam os degraus de um anfiteatro circular: os rostos dos últimos pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos. Insatisfeito com aceitarem passivamente sua doutrina, o mago diplomou para sempre esse vasto colégio, em prol de um único aluno, mas também este ruiu, como ruem os sonhos excessivamente rebuscados. Industriado pelo Fogo, que lhe ministrou magias, ele finalmente concebeu o filho. Sonhado em todas suas minúcias e instruído nos ritos, foi enviado rio abaixo, para oficiar em outro templo. Tempos depois, já tendo ouvido falar das artes do filho, nas ruínas de um templo circular a jusante, o mago se viu cingido pelas chamas. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando. Em meio a essa digressão chega, de barco, uma turba, juntamente com a família, conduzindo um sadhu, havido por santo. Do morto, seguramente boa pessoa, bom chefe de família, marido amantíssimo e pai extremoso, nada apurei, porque os da multidão se desmanchavam aos brados de Osho! Osho! Osho! Ooooooooooosssssssshooooooooooooooooooooooo!!! Do momento em que aportaram, até a deposição do morto numa confortável e espaçosa pira, bem acima das outras, menos respeitáveis e mais próximas da água desse rio que todas as nações resolveram chamar Ganges e que, na Índia, se chama Ganga, um enorme grito se construía: Osho. Depois da pausa para breves preces, alguns passes mágicos - que não excluíram algumas voltas ao cadáver - e mais oshos, muitos oshos! Não passou despercebida uma figura, um tipinho vestindo alaranjado berrante, que gritava, a mais não poder, o nome de seu preferido. Toda vez que sentia um arrefecimento nos ânimos cultuais ele tomava a si a tarefa de informar ao mundo a quem se devia veneração. Não apenas berrava. Erguia as mãozinhas, gesticulava e parecia incorporar o próprio Osho, tamanha a fé, o entusiasmo. Não se contentava em gritar: esmurrava os ouvidos dos pobres turistas. Sustentava o brado saboreando cada silaba de tão propício nome: Osho!!! A certa altura, vi que a ele se juntara outra pessoa, e ambos seguiam rumo ao nirvana (no caso, conquistado a duras penas e muitos berros). Era um ocidental, segundo me pareceu e, por segundos, divisei o que pensei ser a figura do Júlio. "Essa não! Júlio, um místico!", pensei. Felizmente, tudo não passou de um golpe de vista desastrado, e o Júlio navegava com segurança rumo a algum passeio turístico. Pelo menos, foi isso que ele me disse, na volta. Phuket, 20 de janeiro de 2006.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

O delito

Num acesso - pouco edificante - de insensibilidade ecológica, comprei presas de elefantes no Camboja. Eram duas enormes peças, pesando uns 18 quilos, de um marfim ricamente matizado em tons de amarelo. Sem me importar com a ameaça de extinção do elefante asiático, e tampouco com a suspeita de ilegalidade da aquisição, comprei-as a módica quantia, e estava feliz com a façanha. Parecia que eu triunfara sobre a fera na indevassável selva cambojana. Depois desse dia, um sonho, recorrente: um rio de gárrulos elefantes dava voltas e mais voltas em torno a uma pedra que podia ser os restos de uma estrela, mas também era meu túmulo, e ardia. Eram elefantes negros, ferais e banguelas. A horrenda ciranda seqüestrava os sonhos, multiplicando recriminações e remorso. Hoje, no aeroporto de Chiang Mai, oportunos guardas vieram me absolver de meu crime, confiscando as presas, espero que para sempre. O comprovado fato de serem presas falsas não me socorreu, porquanto as feras seguiam crescentemente destroçando minhas noites. Com júbilo, com alívio passei adiante esse pesadelo, e espero que ninguém mais dele se aposse. Com o tempo, possa eu esquecer o delito, e os sonhos retomem seu curso mais pacífico. Chiang Mai, 16 de janeiro de 2006.