sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

China: primeiras impressões

A China é desmedida. Beijing explode em cada esquina. Tudo é superlativo nesse país-continente. Suas Muralhas são um desafio para câmeras e músculos. Corcovas de um dragão que, antigo, dorme em cimos fortificados. A Cidade Proibida, de tão vasta, não se deixa conhecer senão em várias tentativas. Hoje a visitei pela segunda vez, sem a mesma luz favorável da primeira. Presenciei, no zoológico, todas as preguiças de um panda gigante. Por toda a tarde ele bocejava por nós dois. A China cresce. Depressa e demais. Um brasil fica por aí, meio que não sei. Os chineses trabalham. Inventam o futuro que melhor lhes quer.

domingo, 22 de janeiro de 2006

Malásia

Kuala Lumpur é grande, movimentada, com autopistas e trânsito que lembram países avançados. A cidade é dominada pelas Petronas Twin Towers, dois espigões de 452 metros de altura, secundadas por alguns prédios e um alentado parque urbano. À noite, seu brilho faz das torres um improvável desenho animado, de contornos vivíssimos, surreais. Chega-se a pensar que instalaram neon nos andares mais altos, e um visitante desatento imaginaria que chegou a Gothan City. Já não são as mais altas do mundo (essa honra cabe à Taipei 101, com mais de 500 metros), mas são as mais impressionante que já avistei. Os malaios são muitos, como previsto, e não se consegue negar a presença dos chineses. Estou em Chinatown, numa rua que compreende todas as marcas e muitas comidas orientais. Tudo na rua, tudo perfeito para um passeio. O tempo é de uma quentura sem preguiça.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

A cerimônia de cremação

Após algum tempo vendo os cadáveres se congratularem na voragem das chamas, ocorreu-me reparar no entorno da morte. Teriam todos eles merecido sua morte? Não haveria, entre tantos que ardiam, um fraudador, alguém que solertemente se introduzira entre os mortos, só para merecer os favores do fogo, que sabia ilícitos? Jorge Luis Borges nos conta de múltiplos templos de ruínas circulares, em que medra um personagem que era muitos, porém sonhados. Entre tantos elementos, somente o fogo era seu amigo, e o sabia irreal. Na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul. Esse homem sabia que sua obrigação imediata era o sonho. Sonhou uma nuvem de alunos taciturnos, que esgotavam os degraus de um anfiteatro circular: os rostos dos últimos pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos. Insatisfeito com aceitarem passivamente sua doutrina, o mago diplomou para sempre esse vasto colégio, em prol de um único aluno, mas também este ruiu, como ruem os sonhos excessivamente rebuscados. Industriado pelo Fogo, que lhe ministrou magias, ele finalmente concebeu o filho. Sonhado em todas suas minúcias e instruído nos ritos, foi enviado rio abaixo, para oficiar em outro templo. Tempos depois, já tendo ouvido falar das artes do filho, nas ruínas de um templo circular a jusante, o mago se viu cingido pelas chamas. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando. Em meio a essa digressão chega, de barco, uma turba, juntamente com a família, conduzindo um sadhu, havido por santo. Do morto, seguramente boa pessoa, bom chefe de família, marido amantíssimo e pai extremoso, nada apurei, porque os da multidão se desmanchavam aos brados de Osho! Osho! Osho! Ooooooooooosssssssshooooooooooooooooooooooo!!! Do momento em que aportaram, até a deposição do morto numa confortável e espaçosa pira, bem acima das outras, menos respeitáveis e mais próximas da água desse rio que todas as nações resolveram chamar Ganges e que, na Índia, se chama Ganga, um enorme grito se construía: Osho. Depois da pausa para breves preces, alguns passes mágicos - que não excluíram algumas voltas ao cadáver - e mais oshos, muitos oshos! Não passou despercebida uma figura, um tipinho vestindo alaranjado berrante, que gritava, a mais não poder, o nome de seu preferido. Toda vez que sentia um arrefecimento nos ânimos cultuais ele tomava a si a tarefa de informar ao mundo a quem se devia veneração. Não apenas berrava. Erguia as mãozinhas, gesticulava e parecia incorporar o próprio Osho, tamanha a fé, o entusiasmo. Não se contentava em gritar: esmurrava os ouvidos dos pobres turistas. Sustentava o brado saboreando cada silaba de tão propício nome: Osho!!! A certa altura, vi que a ele se juntara outra pessoa, e ambos seguiam rumo ao nirvana (no caso, conquistado a duras penas e muitos berros). Era um ocidental, segundo me pareceu e, por segundos, divisei o que pensei ser a figura do Júlio. "Essa não! Júlio, um místico!", pensei. Felizmente, tudo não passou de um golpe de vista desastrado, e o Júlio navegava com segurança rumo a algum passeio turístico. Pelo menos, foi isso que ele me disse, na volta. Phuket, 20 de janeiro de 2006.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

O delito

Num acesso - pouco edificante - de insensibilidade ecológica, comprei presas de elefantes no Camboja. Eram duas enormes peças, pesando uns 18 quilos, de um marfim ricamente matizado em tons de amarelo. Sem me importar com a ameaça de extinção do elefante asiático, e tampouco com a suspeita de ilegalidade da aquisição, comprei-as a módica quantia, e estava feliz com a façanha. Parecia que eu triunfara sobre a fera na indevassável selva cambojana. Depois desse dia, um sonho, recorrente: um rio de gárrulos elefantes dava voltas e mais voltas em torno a uma pedra que podia ser os restos de uma estrela, mas também era meu túmulo, e ardia. Eram elefantes negros, ferais e banguelas. A horrenda ciranda seqüestrava os sonhos, multiplicando recriminações e remorso. Hoje, no aeroporto de Chiang Mai, oportunos guardas vieram me absolver de meu crime, confiscando as presas, espero que para sempre. O comprovado fato de serem presas falsas não me socorreu, porquanto as feras seguiam crescentemente destroçando minhas noites. Com júbilo, com alívio passei adiante esse pesadelo, e espero que ninguém mais dele se aposse. Com o tempo, possa eu esquecer o delito, e os sonhos retomem seu curso mais pacífico. Chiang Mai, 16 de janeiro de 2006.

Elefantes

O que os tailandeses chamam fazenda de elefantes é, em verdade, um parque de diversões. Ali, elefantes são treinados para impressionar. Na chegada, os turistas dão cachos de bananas e canas-de-açúcar cortadas. Eles pegam com a tromba e levam a suas bocarras, com destreza e volúpia. Depois, um banho no rio, e brincadeiras de molhar turistas com jatos d'água. O futebol de elefantes é hilário e muito instrutivo. Eles são espertos, diretos e, ao contrário dos humanos, não fazem falta. O jogo é jogado; são todos contra todos e não há juiz. O goleiro é hábil, evita muitos gols, mas os atacantes são aplicados. A certa altura, depois de mais um gol de bola parada, o elefante goleiro (não confundir com um goleiro-elefante) dirigiu-se à torcida pedindo desculpas. Muito natural: é um elefante asiático. Nesse momento, um dos jogadores (o mesmo que gira sua tromba como um hélice, de forma bem pouco conspícua), aproveitou a contrição para marcar mais um gol. Entrou com bola e tudo. A comemoração foi no estilo americano: espalhafatoso, exagerado, desrespeitoso. Depois, o mesmo elefante se entregou aos prazeres da pintura. Nao é que o bandido, rei da sem-vergonhice na fazenda, tem estilo impressionista? De onde eu estava, via-o pontilhar a tela, todo se gostando das zombarias que proferia. Comprei um quadro, à saida, só para descobrir que fora pintada pelo cara (sua foto acompanha o quadro). Agora, não sei que fazer com a pintura. As visitas a essas fazendas são divertidíssimas. No dia seguinte, numa outra fazenda, elefantes menos exibicionistas, mas não menos habilidosos, jogavam basquete. Um deles tomava a bola com a tromba, dava uns passinhos de bailarina, na ponta das patas traseiras, um pulinho e... Cesta! Todas as vezes que arremessou, chuá!, sem aro. O mesmo paquiderme batia pênaltis com as patas, dianteiras ou traseiras, sempre balançando a rede. Também marcava gols de calcanhar, esse artilheiro desmedido. Depois, contato com a torcida, de preferência para um suculento cacho de bananas. Disse, linhas atrás, que esses elefantes são treinados para impressionar. Em verdade, essas adoráveis criaturas demonstram personalidade e inteligência raras, e cabe abolir qualquer treinamento. PS: o elefante artilheiro/pintor é uma elefanta adolescente. Phuket, Tailândia, 18 de janeiro de 2006.

Praga, um comentário

Alguns querem ver Paris em Praga; outros, Viena. Enganam-se. Praha, com suas mil torres, passeia por muitos estilos, está acima dessas simplificações. Em Praga Einstein teria se encontrado com Kafka. Einstein formulou a Relatividade Especial em 1905, no casa dos vinte anos, e a Relatividade Geral em 1915, dentro, portanto, da temporada passada nessa cidade, entre 1911 e 1912. Praga também abrigou Mendel, o obeso monge que cultivava ervilhas e morreu sem ver-lhe reconhecida a paternidade de uma abordagem estatística da hereditariedade que depois veio a dar na genética. A cidade viu florescer o gênio de Tycho Brahe, bem antes, numa sólida demonstração de tradição cultural. Quer a tradição turística que Einstein juntava-se a Kafka num café no centro dessa cidade, na época mais fecunda do escritor tcheco, de A Colonia Penal, O Castelo, e O Processo, entre outros delírios severos. A Relatividade, com sua descrição essencialmente geométrica do universo, postula que a gravidade é uma deformação no tecido espacial causada pela presença de corpos maciços. Previa que a luz vinda de estrelas atrás do sol, por exemplo, seria empenada nas bordas do mesmo e chegaria à Terra - consta que essa previsão foi confirmada, em Sobral, num eclipse solar em 1918 -. Assumia que a luz tem peso e não caminha em linha reta. Desnecessário perquirirmos se a teoria está certa. Newton, com seu sistema mecânico quase perfeito, descreve o mundo com precisão de uma parte por mil. A Relatividade é precisa em uma parte por milhão, e a Mecânica Quântica, grosso modo, faz previsões válidas em uma parte por bilhão de unidades. O problema é que, virtualmente, nenhum postulado quântico faz sentido. Todos parecem ter sido inventados por um ficcionista licencioso e demasiado imodesto. Kafka postula mundos insuportáveis, em que as pessoas são peças de uma burocracia total, sórdida e assassina. Os personagens, agindo com estranha naturalidade, prodigalizam torturas uns aos outros, tudo à sombra de uma autoridade invisível, intolerável e malvada. Josef K., executado sem ter acesso ao processo, nem saber qual teria sido o delito ou a acusação, é móvel da mais devastadora acusação contra o gênero humano (Machado de Assis também o faz, sem a mesma monumentalidade, quando retrata a escravidão). A mim, o cerne dessa culpa foi formulado por Anna Arendt: a banalidade do mal. Pouco importaria Josef K., ou Samsa, ou outro torturado personagem do brutal mundo de Kafka. Pouco importaria seu sofrimento, não fosse o ruinoso incômodo de nos identificarmos com esses fiapos humanos. O pobre ratinho, apaixonado pela diva ratazana, também a denuncia como uma lamentável fraude musical, e por isso sofre, e com ele sofremos. São muitas as aflições em Kafka, uma escrita poderosa, de precisão e impiedade militares. Às vezes penso esquecê-lo (mas não o Khmer Vermelho). Quem sabe consiga, e os sonhos voltem a ser só sonhos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Tailândia

A Tailândia desconcerta. Imaginem que um insensato demiurgo resolveu instalar o rio Paraguai bem no meio da cidade de São Paulo, com direito a exuberantes camalotes migrando através de suas águas, verdes. Imaginem esguias pontes cruzando esse rio; palácios e templos dourados crivando suas margens. Imaginem um povo em grande cópia e contínua ebulição, numa cidade do tamanho do Rio. Agora, adicionem coleantes canais visitando bairros e freguesias, numa versão esmeralda e tropical de Veneza. Acrescentem prédios modernos, com capitólios encimando soberbos pagodes, e shopping centers enfileirados um após outro, em louca repetição do apelo consumista, tudo coroado por um calor senegalês: não por nada esse delírio se chama Bangkok. É uma alegria estar aqui.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Templos na Selva

O Camboja, antigo Reino do Khmer, abunda em templos na selva, bucólicos e desistidos. Inacreditáveis construções remetem a mil anos, e registram com fidelidade todos os sectarismos que a floresta, as monções e as guerras impõem. Turistas lotam seus recintos, de uma maneira que eu não supunha possível, e a impressão geral é de um imenso parque de diversões votado ao budismo. Em toda parte, intermináveis hordas de turistas que não cansam de ser japoneses, em contínua expansão. Templos saqueados, há muito desertos de seus criadores, marcham plenos de caos rumo à eternidade. Cansados de sua antiga anarquia, concertam secretamente a posse de um novo povo, no regresso a uma remota e velhíssima economia da alma. Não há uma só pedra, por modesta, que não tenha fatigado um artista, naquele instante delegado ocasional da eternidade. Ao pôr-do-sol esses monolitos acendem, vibram e consentem a passagem para outros atavismos. O sol é inclemente, mas felizmente não chove nessa época do ano. Com um pouco de boa vontade é possível se sentir feliz nessa pétrea cidadela religiosa. Phnom Penh, 11 de janeiro de 2006.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Angkor Wat

Assombrosos solecismos de pedra. Um superparque, com centenas de templos, a maioria com mil anos de idade, dispostos em jardins que descrevem retângulos, às vezes quadrados, circundados por água. Todos exibem as marcas do tempo, das guerras, dos movimentos políticos e das pilhagens, comerciais ou ideológicas. A maioria das estátuas jaz decapitada, e os templos são, muita vez, amontoados de pedras lavradas. Enormes blocos de pedra emulam pirâmides e, de fato, são pirâmides, com escadas íngremes, cada degrau com altura e largura diferentes. Errei por esses labirintos, a princípio fascinado, depois indiferente e, por fim, desesperado ante o interminável, a atroz sequência de áridos recintos, visitados por monges budistas lamaístas. Na maioria deles, infindáveis salas dispostas em sequências transversais. No cruzamento dessas sequências, a ilusão de estar diante de um espelho, tão perfeita a simetria. Em muitos desses templos, árvores gigantes. Figueiras assaltam a pedra, subordinando-a a suas ambições. A floresta cobra o terreno que um dia lhe pertenceu por inteiro. Angkor Wat é o nome genérico desses monumentos, testemunhas da avançada civilização que um dia frutificou no sudeste asiático e que em sua glória edificou esses espantos. O Camboja tem uma grandiosa herança do Khmer, e a desastrosa herança do Khmer Vermelho, pesadelo que só recentemente abondonou o País. Siem Riep, 9 de janeiro de 2006.

sábado, 7 de janeiro de 2006

Camboja

O Camboja, na antiga Indochina, é um pequeno país com fronteiras com a Tailândia, Vietnã e Laos. Foi palco do maior genocídio do século XX, em proporção a sua população. Estima-se que até um quarto da população foi exterminada, por um demônio chamado Pol Pot. Esse demônio teve o suporte dos EUA, presumo que devido ao rotundo fracasso na guerra do Vietnã. Em vários museus da cidade, pilhas e pilhas de crânios, embranquecidos, descansam dos horrores que viveram. O taxista que nos levou por esses assombros teve pai e tio assassinados pelo sistema (chamado Khmer Vermelho). De modo algum ele é exceção. Abateu-me severamente a imagem de três meninas, fotografadas pouco antes de morrerem. Eram criancas, e nada suspeitavam da existência de demônios. Em seu rosto, e no dos demais, a expressão implorando clemência. Eles parecem pronunciar uma única frase, expressamente proibida para vítimas de demônios: "não me mate". No rosto de uma das meninas, uma expressão de raiva e perplexidade. Era uma menina. Provavelmente não sabia que era proibido viver, um crime político que não desdenha os requintes da tortura. Nunca me esquecerei dessa vítima, um ser humano, sem chances contra a insaciável necessidade de assassinar. Siem Riep, 7 de janeiro de 2006.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Incidentes na Índia

1. O "pacote". Um sorrindente Zahir nos atendeu em sua agência de turismo. Demonstrando domínio do assunto, ofereceu-nos um pacote que incluia Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi, perfazendo 10 dias e 500 dólares. Após pagarmos, e ao contrário do que vinha sustentando, ele informou que vouchers, passagens aéreas e de trem seriam entregues somente no dia seguinte, pelo motorista que nos conduziria a Jaipur e Agra. No dia seguinte esse motorista apareceu uma hora depois do combinado, e somente após um telefonema ameaçador disparado contra Zahir. Rumanos para a agência, em busca dos documentos prometidos, mas ignorados pelo motorista. Lá, recebemos vouchers dos hotéis e fomos informados de que as passagens aéreas e de trem nos aguardavam, impacientes, em Agra. No hotel em Jaipur ninguém suspeitava de nossa ida. De qualquer forma, o estabelecimento estava lotado. Levaram-nos a um pardieiro, sem energia elétrica. Preferimos ir ter ao birô de turismo, onde prontamente vimos brotar a vaga no hotel que anteriormente a desconhecia. Em Agra (foi difícil conter a emoção: "vi Agra! vi Agra!") o hotel aceitou-nos de primeira. Após conhecermos o Taj Mahal, rumamos, de trem, para a cidade que fica a meio caminho de Khajuharo. Após pagarmos um táxi, e visitarmos essa cidade de escassos encantos, desistimos da continuação, por trem, até Varanasi. Fomos de avião, pagando à parte e, com isso, o pacote ia se desfazendo, enquanto os custos subiam. Nessa cidade, o hotel era inqualificável, e pagamos por um bom hotel no centro, a 60 dólares a diária. De volta a Déli, pensamos em gratificar Zahir por esses sucessos. O Júlio se entusiasmara com a idéia de capá-lo ("o menino tinha boas intenções", ele insistia), mas eu lembrei-lhe que não seria honesto, além de pouco cristão, deixar de crucificar o patife. Irredutíveis, acordamos em capar e crucificar nosso amigo Zahir, simultaneamente. 2. Ovos fritos. O primeiro café da manhã na Índia foi no quarto. Nada a ver com um acesso de romantismo, incabível. O moquifo em que nos instalamos só servia comida no quarto. Pedimos café, torradas e ovos fritos, estes últimos bem passados, fritos de ambos os lados, firmes, entre outros adjetivos para ovos decentemente fritos. Pois vieram se derramando na bandeja, o garçom deliciado ante a contrafação. No segundo dia, idem, no mesmo hotel. Idem nos terceiro e quarto dias, embora se multiplicassem os adjetivos, em sonoro inglês, para ovos bem passados. Lá pelo quinto dia, diante de um garçom exultante, conduzindo uma inundação amarela numa bandeja rasa, o Júlio foi embora, aviar as malas. Eu fiquei e, com lhaneza, expliquei-lhe como gostaria que viessem os ovos. Funcionou, porque, segundos depois, vieram ovos verdadeiramente fritos, embora o garçom tenha necessitado de aconselhamento psicológico após o episódio. 3. O trânsito. Existe uma diferença entre o trânsito da Índia e o dos muitos países que já visitei. Aqui, os motoristas usam uma técnica similar à dos morcegos: guiam-se pelo som, mais que pela visão. O mais importante para os veículos é sair derramando-se num enfurecido buzinasso. Aos poucos, o rio de veículos descreve um pandemônio, que assalta os tímpanos e perturba as mentes. As ruas comportam tsunamis sonoros, transformando até o mais pacato transeunte num assassino em potencial. Carros, ônibus, caminhões, tuk-tuks, riquixás, bicicletas, pedestres, vacas, porcos, carneiros, búfalos e cachorros: uma alentada reunião de seres bem pouco afins. O trânsito rege-se por uma hierarquia em que os maiores estão no topo e um riquixá, por exemplo, não merece o menor respeito. Todos eles tiram finas dignas de videogame. Todos buzinam como se o mundo estivesse próximo do final e a buzina fosse a única hipótese de salvação. Todos sentem o perigo, mas a necessidade fala mais alto. Cansei de ver-me a milímetros de pesados caminhões na estrada, e de tirar fina, a cada instante, de camelos, pedestres, riquixás. As estradas não têm asfalto e proporcionam, a cada instante, um atentado contra nossas vidas. 4. O flautista No Hotel de Varanasi o flautista interrompia seu concerto para, ao celular, checar com o próprio compositor quais seriam as próximas notas. Por pouco não surramos o bandido.

India: um epílogo

Meus caros: encerro a Índia. Não me foi leve. Não me agrada a miséria, já denunciada. Inda mais a indigência exibicionista hindu. O ar poluído, alérgico, não ajuda, e tampouco a comida, vária ração de desafortunados pedaços de frango. Dos indianos? Não sei. Dada a experiência, resolvi poupá-los de um comentário que, de qualquer forma, revelaria preconceito. Talvez a Índia tenha um futuro, e ele até seja radioso e feliz. Sei que o povo que vi nas ruas não o tem. Varanasi (Benares), 4 de janeiro de 2006.

Varanasi

O excesso humano inviabiliza a cidade, postada nas orelhas do Ganges. O rio, que já chega sujo à cidade, é insultado por tremenda carga de esgoto, e também acolhe os fumegantes ossos dos mortos cremados às suas margens.

A cerimônia. O morto, envolto em tecidos, é confiado a uma pira e coberto com madeira. Logo o fogo inicia seu antigo ofício. Os mortos ardem sem reclamar, normalmente, entregando serenamente alvos ossos. Em alguns casos, porém, uma perna pode se apresentar e o morto, atendendo a estranha convocação, parece dar um passo à frente. O decoro manda que seja contida, restituindo-se a militar perna a sua posição de conformada honra. Pode acontecer de o crânio, privado de seu costumeiro adorno, exibir massa encefálica, que brota dos muitos buracos da face.

De minha posição, num terraço visitado pelos fumos da morte, vi um pé, caído, ser reconduzido às ciumentas chamas. Após um tempo - que eu não saberia precisar - vi um sadhu, considerado homem santo, ser reposicionado nas chamas, e um seu braço se apoiou brevemente numa haste em brasa, enquanto crânio e torso bebiam, com volúpia, vívidas chamas purificadoras.

Um pouco mais de lenha pode ser acrescentado se, porventura, o falecido acusar frio ou falta de luz. Se, acaso, ele reclamar, pés fujões podem ser recapturados. Mesmo um morto muito precavido pode, naquele ardor, perder a cabeça, já amiga das chamas, obrigando redobrada vigília.

Consumado, o corpo emite luz. Alcança equilíbrio em sua entropia final. Nova Déli, 5 de janeiro de 2006.

India: evite, se puder

Nova Déli, Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi. Para minha saúde física e mental, é o bastante. A civilização hindi não convence. Suas cidades parecem ter recém-saído de uma guerra e um terremoto, simultâneos e arrazadores. Em toda parte, ruínas, devastação e miséria. Nada se salva. Nada pode ser feliz num país que cambaleia no limiar da fome e da morte. O hinduísmo reivindica muitos achados religiosos, mas ajudou a guiar a India a uma permanente hecatombe. (Alguém disse - acho que foi o Júlio - que o filme Mad Max poderia ser filmado na India, sem o artificialismo de cenários. Discordo. A India precisaria melhorar substancialmente para poder retratar, sem sustos, um mundo pós-hecatombe nuclear). 1.000.000.000 de famintos, morrendo entre vacas, porcos e macacos nutridos, mas intocáveis. Jurado de morte, o hindu existe, copioso. Para quê? No caminho entre Déli e Jaipur vi silhuetas de prédios corporativos em construção. O fog e a miséria do entorno conspiravam para fazer-me ver fantasmas bruxuleantes, que ardiam por entre esqueletos de futuras sedes de negócios. Não entendo os hindus. Após alguns dias em sua companhia, talvez não queira. Sua horrenda escalada no subcontinente não os favorece. A densa trama de pessoas desarvoradas compõe um quadro de repulsiva repetição. Na India, não há chance para o homem. Viver com menos de um dolar por dia. Há um sofisma irredutível nessa frase, que remete diretamente às mansões da morte. Alguns vêm à India para confirmar suas fantasias místicas. Plenos de fervor prévio, não enxergam o impossivel show de horrores que a Índia prodigaliza. Vacas disputando o lixo com mendigos; pessoas que fedem a urina e suor de meses; astutos porcos e patos esperando mendigos defecar para comer-lhes os excrementos. A civilização se contorce e produz sub-humanos. Não parece afetada pela dor que, impropriamente, sinto. Comerciantes, hotéis e empresas de turismo, todos respeitáveis, praticam respeitabilíssimos golpes contra seus clientes. Vendedores de qualquer coisa espreitam em cada esquina. Nuvens de indigentes se aglomeram a sua volta, varejam sua alma e dela extraem uma percentagem. Cada sagrada vaca injeta na atmosfera 600 litros/dia de metano, por meio de sagrados puns. Os indianos têm milhões de indolentes vacas, cheias de bernes, carrapatos e vermes. Após errarem pelas cidades, terminam carneadas por cachorros. Sua cozinha, um interminável desfile de migalhas de frango abusadas por pimentas ilícitas, completa o dissoluto quadro dessa civilização, que já foi mais bem representada. "Esta miséria", pensei, "é tão horrível que sua mera existência e perduração, embora no seio de uma civilização remota, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz". Déli, 5 de janeiro de 2006.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Inverno em Praga

Praha, capital da Tchecoslováquia, agora República Tcheca, é uma cidade do Leste Europeu cheia de encantos. Sua arquitetura medieval, rica em torres, capitéis e campanários, evoca talvez Florença, a sermos amigos de comparações.


A catedral Tyn, o torreão isolado no meio da rua, o Castelo de Praga: há um toque naturalmente sinistro nessas massas arquitetônicas que, se não vem de Kafka, o evocam ou, no mínimo, não o refutam.

Tampouco o que sobrou dos guetos negam o profundo escritor, autor de O Processo, A Colônia Penal e A Metamorfose, artífice dos mais sombrios pesadelos que já deram expediente no espírito humano.

A família do escritor foi assassinada nos campos de concentração, na década de 1940. Kafka morreu de tuberculose, aos 42 anos, apos intuir metaforicamente todos os terrores do Século XX, chefiá-lo literariamente e debelar nossas últimas ilusões. Foi o esteta superior daquele século, de uma desumanidade manifesta.

Praga está tomada de gratificados turistas. E cheia de música.

Volto agora das Quatro Estações, de Vivaldi.

Amanhã, o ossário de Sedlic e, quem sabe, jazz, à noite. 

Praga, 22 de dezembro de 2005.